sábado, 30 de outubro de 2010

Piranha 3D (Idem)


No cinema existe uma grande diferença quando um diretor acredita fielmente que está filmando uma obra-prima e o resultado acaba sendo um filme trash ou quando o mesmo cria uma obra sem pretensão e tentando realmente ser trash. O segundo exemplo é o que acontece com o divertido Piranha 3D, remake do filme dos anos 70, que agora ganha uma nova versão tridimensional nas mãos do sanguinário diretor francês Alexandra Aja (Viagem Maldita, Espelho do Medo).
Em Piranha 3D temos como pano de fundo para o ataque das piranhas uma combinação perfeita que envolve sol, música, cerveja e mulheres de biquíni, aliado à estes aspectos, um feriado à margem de um lago. Até aí tudo bem, tudo perfeito, porém, um terremoto abaixo da superfície liberta um cardume de piranhas famintas, e quando o perigo vem por debaixo d'água não há como se prevenir. Agora, a policial Julie Forester (Elisabeth Shue) terá que fazer de tudo para interditar o lago e impedir que toda a galera se transforme em comida de peixe.
Desde a cena inicial após a participação especial do ator Richard Dreyfuss com o primeiro ataque (“mal feito”) das piranhas e o conseguinte surgimento do logo do filme que parece ter sido produzido na mesma época do original de tão tosco, já nos levam a pensar que tudo isso é realizado a fim de deixar claro que estamos à frente de um novo clássico trash.
A história se divide em duas situações, por um lado temos o filho da xerife local, Jake (Cody Kennedy) que deixa seus irmãos menores sozinhos, para poder auxiliar um diretor (Jerry O’ Connell) de filme pornô e suas modelos interpretadas pelas sensuais (impossível classificá-las de outra maneira) Kelly Brook e a atriz pornô Riley Steele, além da desnecessária personagem Kelly (Jessica Szohr), o amor adolescente de Jake. Em uma das cenas Jake presencia Kelly Brook e Riley Steele dançando e nadando peladas no mar, com direito a música clássica na trilha sonora, cena que já entrou para a história do cinema, seja para o bem ou para mal, dependendo da sua visão.
Por outro lado a xerife Julie (Elisabeth Shue) está ao lado de uma equipe de pesquisadores tentando encontra no mar o local que aconteceu um estranho terremoto subterrâneo. Ao longo das investigações, Julie descobre com o auxílio de Goodman, interpretado por Christopher Llyod (De Volta Para o Futuro), que por causa do terremoto um cardume de piranhas pré-históricas foram liberadas no Lago Havasu. A xerife agora precisa esvaziar o lago lotado de jovens bêbados que estão curtindo suas férias antes que os banhistas virem comida para as piranhas.
Com tudo isso, temos um filme que vira uma mistura de terror com comédia, com uma longa (e impressionante) cena dos jovens sendo atacados pelas piranhas, com direito a muitas cenas de nudez (os adolescentes vão pirar), sangue e mutilações violentas e absurdas, como a de um pênis, na cena mais engraçada do filme.
Piranha 3D é diversão picareta e garantida, assumidamente vagabunda, porém talentosa. Alexandre Aja simplifica absolutamente tudo ao máximo: há uma explosão interminável de clichês sendo trabalhados e a história se justifica meramente como um embuste (há uma festa louca à beira da praia e uns malucos fazendo filme erótico num barco e uma policial tentando evitar que a galera vire comida de peixe,e é só isso) qualquer jogado em tela para montar uma narrativa que conecte as diversas cenas e imagens-chave, que vão desde as criativas e bem maquiadas mortes, cheias de sangue, triturações e desmembramentos, até nudez; pornografia; beijos lésbicos debaixo do mar; brincadeiras envolvendo bebidas derramadas em barriguinhas saradas em alto mar; beijos lésbicos em alto mar; personagens fazendo filmes pornôs enquanto bebem e se drogam ao redor de um monte de mulheres semi-nuas e bêbadas; festas a beira-mar; tragédias a beira-mar; beijos lésbicos a beira-mar; e um romance mais picareta que o próprio filme.
Tirando tudo isso, é verdade, não sobra nada. E nem precisava. Piranha 3D assume-se como um genuíno filme trash e Aja é extremamente habilidoso em lidar com todos estes elementos, fazendo um filme objetivo e dinâmico e que consegue divertir com facilidade àqueles que embarcarem na brincadeira. Não alça vôos maiores justamente por se minar de tantos elementos cômodos do cinema trash, mas faz justiça contra aqueles que sempre enxergaram o original como sendo um produto superficial de segunda linha com as muitas “pancadas” que recebeu.
Piranhas 3D não foi rodado e sim convertido para 3D, obtém com essa opção o pior resultado possível e isso é realmente uma pena. Apesar das cenas terem sido criadas obviamente para causar impacto quando em 3D, por causa da péssima conversão em alguns momentos as imagens parecem embaçadas. Para tornar o filme ainda mais cômico a cena que funciona melhor em 3D é na cena das mulheres nuas.
Piranha 3D é uma mistura dos filmes de terror do passado e do presente, ao mesmo tempo que mantém seu lado cômico na medida certa, diversão certa para quem for assistir sem expectativa de ver um grande filme e tiver estômago forte. Posso dizer que Piranhas 3D foi um dos filmes mais violentos que assisti e certamente foi feito pra impressionar objetivando assim fazer jus à sua temática trash, por isso o recomendo somente a quem tiver “estomago de ferro”.
Uma ótima pedida, Aja se mostra mais uma vez um diretor talentoso, conseguindo alcançar ótimo resultado no trabalho que se propôs a realizar, gostei, nota 9!

domingo, 24 de outubro de 2010

Atividade Paranormal 2 ( Paranormal Activity 2)


O primeiro filme da agora franquia “Atividade Paranormal” veio com uma idéia bacana, uma produção simplória e uma realização que funcionou muito bem. O longa atingiu um nível claustrofóbico interessante, que obrigou o espectador a necessariamente embarcar na experiência proposta pelo mesmo. Ainda assim, tivemos um bom material para trabalho que foi desperdiçado com uma duração desnecessária da projeção, e os quase inexistentes sustos, para uma produção que ao menos se vendia como assustadora. Mesmo assim, os poucos momentos de sustos são compensados pelos momentos de tensão e medo e a conexão entre essa tríade garante um filme surpreendente e que chama a atenção do público aficcionado à filmes do gênero.
Após uma boa aceitação do público e uma imensa rentabilidade, obviamente se providenciou a continuação do filme, que aparentemente seria uma história independente daquela mostrada no primeiro longa. Justamente aí que reside um grande ponto positivo desse segundo filme: A forma como ele se relaciona com o antecessor. Ainda que seja uma sequência “avulsa”, com outro foco e outros protagonistas, o “link” que é construído paralelamente à história previamente apresentada é feito minuciosamente e acresce de maneira interessante a ambos os filmes. Somente aí já temos uma construção narrativa respeitável. A ligação entre os dois filmes é muito bem descrita e articulada, e explica de maneira simples, porém detalhada, o que são as “atividades” e porquê acontecem.
O longa ainda investe em uma das questões mais pertinentes em filmes do gênero: A identificação com o espectador. Ele traz uma história bastante crível que discute os famigerados jogos envolvendo contatos com espíritos, amplamente difundidos entre o público mais jovem. E toda a história que precede a cronologia da trama, é contada por meio de diálogos deslocados que exigem do espectador a mínima capacidade para interpretar a tal história prévia em questão. Portanto, é fundamental que o público assista ao primeiro filme.
Mas o grande trunfo da sequência é justamente o seu foco principal. “Atividade Paranormal 2″, assim como o primeiro, aposta no medo e na expectativa, e não no susto em si. Aqui temos também um material bem mais aterrorizador que no primeiro. É interessante ver a reação das pessoas na sala de projeção. Os sustos e gritos vinham nas horas adequadas, mas em outros momentos algumas risadas deslocadas eram ouvidas. Galhofa? Talvez. Mas prefiro imaginar que era a maneira que o público tinha para expressar tamanho nervosismo e suspense. E ainda que os possíveis sustos tenham sido frustrados por diversas vezes, o que exemplifica um dos grandes defeitos dos dois filmes, em especial o primeiro, esse segundo nos compensa com um olhar acerca da reação dos personagens, traçando um paralelo direto com as próprias pessoas da sala de cinema.
O longa conta com uma boa equipe de atores, na qual curiosamente todos os personagens têm o nome dos seus respectivos intérpretes. Essa equipe tem uma dinâmica interessante, que transmite para as telas grande naturalidade nas cenas, o que torna mais crível as discussões e dilemas das personagens. Defendo ainda que o longa seja dividido em duas partes: A primeira seria como as pessoas evitam afirmar esses acontecimentos, analisando a incredulidade, medos, e até mesmo questões religiosas, e em segundo seria como elas reagem quando comprovam a existência efetiva dos mesmos, discutindo inclusive os limites da integridade moral dos personagens em questão.
O filme não tem recursos fotográficos rebuscados e sua técnica visual é “rasteira”. Destaque para uma sequência onde uma “handycam” assume a primeira pessoa, e anda à noite pela casa; além de uma cena no final, que usa novamente na técnica utilizada em “O Silêncio dos Inocentes” e o mais recente “REC”. Conivente com a narrativa, temos seis câmeras estáticas que captam grande parte dos acontecimentos, o que funciona por justificar as algumas gravações do filme, mas que acabam sendo por vezes, repetitivas. No entanto, esta repetição não chega a ser cansativa e é até importante para garantir o clima de terror, medo e tensão que crescem a cada minuto.
A edição e montagem seguem a lógica da direção, que preza por frustrar os sustos durante grande parte da projeção com planos que são inúteis se analisados de maneira emergencial, mas que gradativamente são responsáveis por introduzir as cenas que exigem mais técnica, que aparentemente são construídas sem o auxílio de qualquer tecnologia digital. O quesito sonoro auxilia bastante no clima que se pretende criar e a simples inserção do som ambiente já é grande responsável pela tensão criada, que acaba evidenciando cada pequeno ruído presente na claustrofobia da residência.
Bem provavelmente eu tenha observado muitos aspectos que talvez não se encontrem tão efetivos quanto são, como quando analisamos minuciosamente as entrelinhas da história. Mas se conseguimos obter tantas camadas de interpretação, é porque ainda que indiretamente, o filme dá vazão para tal. Mas o mais interessante é o seguinte: Quando a projeção terminou, os créditos rolaram com sons e ruídos bastante peculiares, mas os espectadores começaram a especular o porquê que as luzes não acenderam. Fui até um funcionário do cinema e perguntei o motivo, e ele me avisou que foi uma exigência da distribuidora, bacana né? Isso significa que o filme se leva e é levado a sério. E só nisso ele merece, ao menos, respeito.
“Atividade Paranormal” 2 é filme feito para aqueles que gostaram do original. Recria o formato sem inovar em nada, mas novamente conseguindo gerar tensão e principalmente medo (muito mais comparado ao primeiro). É um filme de espera, onde os pequenos movimentos incomodam mais pela expectativa do que está por vir do que propriamente pelo que acontece. Além disto, sua história é melhor desenvolvida do que no primeiro filme, que possuía diversas cenas que passavam a impressão de ali estarem apenas para ocupar espaço. Um ótimo filme, que acrescenta dados importantes e coerentes para a franquia como um todo e deixa um final predispondo à novas sequências. Se a qualidade dos futuros filmes for mantida, que venham novas continuações!
Bastante recomendável, principalmente aos fãs do gênero suspense/terror. Por outro lado, não recomendável à pessoas que se impressionam facilmente e tem medo de assuntos envolvendo espíritos!
Nota 9

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - O Inimigo agora é outro


Lançado em 2007, “Tropa de Elite” se tornou um dos maiores ícones da cultura pop brasileira no século XXI. Vítima de uma polêmica sem precedentes envolvendo a pirataria no país, o longa conquistou uma legião de fãs, que repetiam nas ruas jargões que viram no cinema (ou, infelizmente, no computador), como “pede pra sair”, "nunca serão", “faca na caveira”, "o sr. é um fanfarrão" e muitos outros.
"Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção". É desta forma que inicia “Tropa de Elite 2”, fenômeno antes mesmo de estrear. Em parte pela popularidade do filme original, que eternizou personagens e bordões no inconsciente coletivo nacional, mas não apenas isto. O grande atrativo de “Tropa de Elite” era a denúncia ao “status quo”, à corrupção que permeia a polícia e faz com que ela aja de forma ineficiente e truculenta. Somado a isto, há a criação de um salvador, um ícone que surge para "limpar a cidade": (grande)Capitão Nascimento. Os meios brutais os quais usa nada mais são do que reflexo da sociedade atual, que os aceita por não mais crer em soluções pacíficas. É dentro desta realidade, e sabendo explorá-la, que o diretor José Padilha conduz a história de seu novo filme.
Padilha aprendeu muito desde o primeiro “Tropa de Elite”. Ousado ele é desde “Ônibus 174”, o corajoso documentário que dá um caráter sociológico ao sequestro ocorrido no Rio de Janeiro em 2000. Acusado de fascista, ele agora brinca transferindo a acusação ao personagem principal da série. Só que, mais do que rebater as críticas que recebeu, Padilha as amplia. Deixa o reduto carioca do BOPE para tratar de política, partindo do Estado do Rio de Janeiro para alcançar o país ( oooo maraviha, Padilha: VC É O CARA, hehe). É exatamente neste ponto que Tropa de Elite 2 atinge sua grandiosidade.
O filme começa situando o espectador em relação aos personagens sobreviventes. Nascimento (Wagner Moura, mais uma vez incorporando de forma brilhante o personagem) permaneceu no BOPE, mas logo o deixa para cumprir uma função na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Acreditando ser esta sua grande chance de "quebrar o sistema", como o próprio diz, embarca com unhas e dentes na difícil empreitada de derrotar o tráfico de drogas. Consegue. Só que a realidade brasileira, como bem dizia Tom Jobim, não é para iniciantes. Mesmo uma “raposa” experiente como ele não podia contar com as “mutações” do sistema para que tudo permanecesse como está. E é justamente a revelação destas “mutações”, em caráter muito mais amplo do que simplesmente a questão de segurança pública, que faz de “Tropa de Elite 2” algo muito maior do que um mero filme.
Padilha conseguiu tratar de assuntos complexos e delicadíssimos (acredito que até para sua própria segurança) de forma coesa e coerente. Não há como não reconhecer vários dos personagens e situações retratados a partir do que se vê na vida real. “Tropa de Elite 2” é, em vários momentos, um documentário rodado com atores, o que lhe dá uma importância ainda maior. É o cinema denúncia, expondo uma situação calamitosa a qual se prefere fechar os olhos por comodismo ou interesse.
A corrupção da polícia, assim como no primeiro filme, ainda é abordada, mas agora é vista como ferramenta de um jogo de poder muito mais complexo. O lançamento do filme em período eleitoral (outubro de 2010) é sintomático, uma vez que podemos ver que os políticos retratados na produção não são muito diferentes dos que foram eleitos para cargos públicos recentemente. Alguns dos personagens, inclusive, são praticamente cópias de candidatos reais, mas não nos cabe aqui dar nome aos bois.
Em meio a questões sobre direitos humanos, política eleitoral e o impacto dos atos de Nascimento junto à população, “Tropa de Elite 2” traz de volta o sarcasmo do primeiro filme. Desde provocações como chamar o esquerdista Fraga (Irandhir Santos, impecável) de "Che Guevara" até constatações diretas e secas, como "os chefes do tráfico em Bangu I não foram mortos porque tinham grana para perder", o filme é repleto de belas sacadas que já fizeram a alegria dos fãs do filme original. Se não tem a mesma quantidade de frases marcantes, trata de forma coerente e realista todos os personagens, dos mais importantes aos de menor destaque no filme original. Méritos para Bráulio Mantovani, “monstro” em matéria de roteiro no cinema nacional.
Mantendo os mesmos acertos do primeiro longa no que diz respeito à fotografia, edição e trilha sonora, “Tropa de Elite 2” possui ainda a qualidade de se provar complexo. O filme, e o problema da violência no Rio de Janeiro e outras grandes cidades no Brasil, não pode ser explicado em poucas linhas e, por isso, a opção de fazer uma continuação para mostrar outra vertente da questão é absolutamente memorável.
É claro que algumas sequências, em especial as de ação, irão lembrar “Tropa de Elite”, mas este segundo filme tenta ao máximo evitar a redundância. Busca-se inclusive modificar um pouco as sequências de tiroteio e invasão de favelas para não parecerem mais do mesmo.
“Tropa de Elite 2” não é um documentário sobre o sistema ou um filme panfletário de denúncias, mas coloca o dedo na ferida em algumas questões importantes e se isso for o suficiente para estimular a reflexão o filme já terá cumprido seu propósito. É claro que o filme pode ser visto apenas como um thriller político de ação, mas é muito mais do que puro entretenimento.
“Tropa de Elite 2” é um excelente filme. Só isto já é motivo mais do que suficiente para assisti-lo, mas desta vez José Padilha foi mais longe. Conseguiu, a partir de um mero filme, convidar o espectador a rediscutir o Brasil como sociedade, como proposta viável de país. Sem apresentar soluções, apenas retratando a realidade. Talvez não seja tão bom quanto o original, mas com certeza é mais importante, pelo que representa para o cinema brasileiro e, acima de tudo, para o país.
Uma exibição lotada, uma platéia inflamada que durante vários momentos aplaudiu à sessão calorosamente e um parágrafo resumitivo para retratar o que achei sobre “Tropa de Elite 2”:
Um filme corajoso, audacioso e muito, mais muuuuuuuito polêmico... como eu queria que todo o sistema assistisse a este filme.... sei que é uma obra de ficção e pouca coisa mudará na vida real no que diz respeito à “máfia” que envolve nossa sociedade e principalmente nossa política, porém, a ferida foi cutucada e isso já é algo importante e significativo!!
Junto de "A origem", "Tropa de Elite 2" é o melhor filme do ano!
Nota 10!!