
Filmes de terror são os meus prediletos e não pensei duas vezes para assistir “O Último Exorcismo” em sua estréia, até porque está recebendo boas críticas e trata-se de uma temática sempre muito polêmica e muitas vezes oculta em nossa sociedade. “O Último Exorcismo” é filmado através de uma câmera rústica de mão, com o intuito de fazer de conta que há veracidade naquilo que está sendo mostrado, proporcionando maior realismo à situação e provocando mais medo e sustos ao público alvo. O filme até consegue provocar momentos de medo e sustos, porém, falha nos quesitos explicação dos fatos e roteiro, oferecendo-nos um resultado final previsível e decepcionante.
O reverendo Cotton Marcus (Patrick Fabian) decide filmar seu último exorcismo. A escolhida para a última prática dele é a inocente Nell Sweetzer (Ashley Bell), filha de Louis Sweetzer (Louis Herthum), um perturbado senhor e fanático religioso. Inicialmente, Marcus propõe revelar as mentiras que envolvem a prática tantas vezes feitas por ele, mas logo a situação que ele achava ter domínio sai de controle ao ponto de causar dúvidas sobre a existência de demônios até mesmo no experiente reverendo. Apesar do enredo previsível, vemos que este se encaixa direitinho com o tom da história e até consegue envolver, porém, alguns furos no decorrer da história acabam estragando tudo.
A direção é do desconhecido Daniel Stamm, que tem um desempenho superior a sua popularidade. Ele usa e abusa das técnicas de filmagem e as utiliza de forma ousada e oportuna. Além da câmera nervosa que treme exaustivamente, temos traços amadores utilizados de forma pensada que, dentro do contexto da obra, acrescentam muito ao trabalho. Uma das cenas mais interessantes é a que a menina tomada pelo demônio pega a câmera e saí desesperada. O efeito da cena é aterrorizantemente válido principalmente pelos sustos causados. Assim, o longa utiliza a seu favor um fato que o prejudicaria inicialmente.
O artifício de se utilizar a câmera caseira é um recurso que definitivamente funciona bem no filme. Fica a sensação de que o susto pode surgir a qualquer momento e isso acontece até mesmo quando a câmera não está captando as imagens mais aterradoras que deveria captar. A rusticidade na imagem muitas vezes desfocada, aliada aos “closes” no rosto de Nell, geram momentos de tensão e sustos em alguns (poucos) momentos. Poucos momentos de sustos? Sim. Eis outro aspécto negativo do filme. O orçamento de “O Último Exorcismo” girou em cerca de 1,8 milhões, valor ínfimo comparado a outras produções do mercado cinematográfico mundial, sendo assim, observamos um trabalho com poucos recursos no quesito efeitos especiais, visuais ou ainda sonoros e na minha visão, os momentos de tensão, sustos ou medo, não foram maiores por isso. Não que esses aspéctos sejam essenciais para se fazer um bom filme, mas no caso de “O Último Exorcismo” fizeram falta, pois estão praticamente ausentes e os poucos momentos de tensão que a película nos oferece está exclusivamente associado à maneira com que a câmera é conduzida, através de seus closes, fechamentos e “tremeliques”. Deste parágrafo dá pra se tirar uma crítica positiva: o mérito de gerar medo e tensão através da ação exclusiva de uma câmera de “baixa qualidade”, e uma crítica negativa: o pouco recurso financeiro destinado ao filme, e a conseqüente ausência de maiores recursos técnicos que poderiam proporcionar ainda mais momentos de sustos, advindos do medo e tensão.
Do desconhecido elenco destacam-se três integrantes cruciais para a história. O primeiro é Patrick Fabian, que encarna o falso reverendo e lhe dá uma esperteza bem interessante à proposta do personagem. A segunda é a menina “endemoniada” (Ashley Bell). Ela inicialmente é frágil e meiga, depois é inescrupulosa e cínica. Quando boazinha, ela não convence, mas no lado ruim ela se supera. O terceiro é o pai (Louis Herthum) da menina que é cercado por seu fanatismo e por um mistério que perdura toda a obra. E ainda tem a produtora da filmagem feita por Iris Bahr que, embora esteja em quase todas as cenas, aparece em poucas e nada acrescenta à trama.
O roteiro (de Huck Botko e Andrew Gurland) é um tiro no pé do filme. Até se constrói um ambiente pensado e realista que impressiona por sua eficiência quanto ao gênero, porém, logo em seguida, a dupla de roteiristas estraga tudo com a história do “666” nas paredes e com o desfecho que não merece nem comentários. Percebe-se a frustrada tentativa de repetir os finais de outros filmes que deram certo, no entanto tal estratégia não funcionou.
A fotografia do longa é boa à medida que explora o lado obscuro da história, além de utilizar o baixo orçamento a seu favor. É mais válido explorar com detalhes uma casa caindo aos pedaços situada em um lugar deserto e aterrorizante. Além de ser mais realista, é muito mais econômico. A cena quando o reverendo chega ao local onde praticaria o ato é bem lenta e descritiva. Ela dá uma importante introdução do cenário isolado da obra. Destaque também para o bom aproveitamento das cenas noturnas, das cores escuras e da cor vermelha. Esta última é perceptível na sequência em que a menina sai com a câmera.
O tom metalinguístico da película se inspira em uma tendência nas obras de terror mais bem sucedidas nos últimos anos. O fato de ser filmada dentro de uma filmagem é estranho, mas até que funciona. O maior exemplo disso é “Atividade Paranormal”, que muita gente acredita até hoje que são cenas reais. Em determinada cena, a imagem do espelho mostra o câmera que é totalmente descartado da história. Ele a filma, mas não fala. Já a produtora aparece em poucas cenas apenas para o público não esquecer a contextualização da obra. Algo que não caiu muito bem, diga-se de passagem.
“O Último Exorcismo” impressiona por sua beleza visual perante a um baixo orçamento. Um filme que utiliza sua deficiência como uma oportunidade e, embora cause alguns (poucos e bons) sustos durante toda sua exibição, o andamento da história deixa uma impressão aquém do que merecia. Destaques para o aspécto visual e pela maneira com que a “filmagem caseira” foi conduzida, como críticas negativas (e pra mim são as principais) coloco o roteiro e o desfecho, amplamente previsível e decepcionante.
Nota 6


