sábado, 28 de agosto de 2010

Karate Kid (Idem)


A superação, o “chegar lá”, vencer após uma jornada cheia de obstáculos são elementos fundamentais para a sociedade como um todo, sendo esta visão ainda mais importante e clara nos dias atuais diante das barbáries e sofrimentos que nos acometem. Não dá para pensar na cultura mundial sem passar por um sistema político-econômico que vende a idéia de mundo “possível” para todos os cidadãos, basta “apenas” lutar e confrontar todas as barreiras que impedem nosso crescimento e desenvolvimento como pessoas. Baseado nesta premissa, eis que surge o novo “Karate Kid”, remake do sucesso “Karate Kid – A hora da verdade” (de Jonh G. Avildsen, de 1984). Sai o Karate e entra o Kung Fu, então por que “Karate Kid”? Sinceramente não entendi o porquê do título ter se mantido. Não havia necessidade de se manter tal fidelidade, pois isto é obtido com precisão ao longo do filme.
A história base é a mesma do longa oitentista. Garoto se muda com a mãe para uma nova cidade e é ameaçado por valentões locais. Para ajudá-lo, surge um improvável instrutor de artes marciais que lhe ensina não só a lutar, mas também a ter respeito próprio e aos outros. Mas os desafios encarados pelo pequeno Dre (Smith) e seu mestre, Sr. Han (Jackie Chan), são bem mais complicados que as dificuldades enfrentadas por Daniel-san e Sr. Miyagi no original.
Nesta nova versão, Dre e sua mãe se mudam de Detroit para a China, tendo de lidar com o choque cultural e com um idioma bem diferente do seu. A ambientação atualizada também trouxe uma mudança óbvia na arte marcial praticada pelos personagens, agora sendo o Kung-Fu.
O roteiro do remake (de Christopher Murphey) é bem amarrado, equilibrando momentos que homenageiam o original e outros que dão a este filme sua própria identidade, sendo, pra mim, mais inteligente do que o original, tendo a capacidade de aprisionar o espectador em todas as situações emotivas. Por exemplo: quando o personagem Dre (Jaden Smith) finalmente aprende alguns golpes, “Karatê Kid” usa e abusa de um planejamento impecável referente à relação mestre-aprendiz-cenários e trilha sonora, sendo tal relação incapaz de nos deixar indiferente ao longo da trama, onde o sentimento de emoção é garantido em vários momentos. Problemas existem, assim como existiram no filme original, há alguns clichês um tanto inúteis na história, como o fato do romance entre Dre e Meiying (Wenwen Han) ser proibido pelo pai da donzela em dado momento, sendo este romance deveras prolongado, “roubando” momentos que poderiam dedicar-se mais às lutas ou treinamentos de Dre. Mesmo assim, na minha visão, este aspécto não atrapalha o andamento e preciosidade do filme.
O fato de Dre ser bem mais jovem que o protagonista do original nos ajuda a deixar Daniel-San de lado. No personagem, o pequeno Dre ( Jaden Smith) realmente age como uma criança, algo raro em produções norte-americanas. Smith traz carisma e vivacidade e transmite bem toda a inquietação e os problemas que Dre atravessa, mas sem perder o espírito infantil, agindo como um garoto de verdade, seja no seu tratamento com a mãe, com o seu mestre ou mesmo em seu jeito inocente e um tanto quanto inconsequente. Tais “defeitos” tornam fácil a identificação com o personagem, é uma atuação convincente e satisfatória que merece ser lembrada.
O pequeno segura o filme de maneira incontestável, além de ter uma ótima química com Han (Jackie Chan). O astro asiático, por sua vez, jamais tenta emular o amado Sr. Miyagi, transformando Han em uma pessoa de verdade, não em uma caricatura (algo que o próprio Miyagi havia se tornado no último filme da franquia). Chan, mais sisudo que de costume, não apenas passa a credibilidade necessária para o papel, mostrando as suas habilidades em uma curta, porém impactante cena de luta, como também convence nos momentos dramáticos, com seu personagem passando por um ótimo arco narrativo no filme, a atuação de Chan, pra mim, foi a de maior destaque no filme, conseguindo superar até a brilhante atuação de Smith.
As damas do elenco, a indicada ao Oscar Taraji P. Henson e a novata Wenwen Han, pouco têm a fazer, mas surgem bem no filme, sendo os grandes apoios e motivações de Dre. Destaco principalmente Henson, extremamente divertida e carinhosa em cena. Os antagonistas, o jovem arruaceiro Cheng (Zhenwei Wang) e o Mestre Li (Rongguang Yu), são estereotipados ao máximo, mas tal característica cai como uma luva para as intenções da história sendo contada, principalmente honrando o espírito dos “vilões” dos longas dos anos 1980. O elenco como um todo teve grande destaque e por isso coloquei a equipe de atores e atrizes como prioridade.
A produção é super caprichada. O diretor Harold Zwart faz um ótimo trabalho, determinando boas e interessantes transições entre as cenas (vide o corte entre a cena na quadra de basquete e a do apartamento), o diretor ainda utiliza muito bem a câmera de mão em dados momentos, imprimindo urgência em dadas sequências. Sim, existem eventuais exageros, como alguns momentos em câmera lenta, como a surra que Dre leva de Cheng e seus colegas, que simplesmente não funcionam, mas o cineasta acerta muito mais do que erra, também explorando com eficácia as locações em ícones que determinam cartões-postais chineses, como a Grande Muralha e a Cidade Proibida.
É importante ressaltar a fotografia do filme (de Roger Pratt), que acertadamente investe em cores quentes e em uma fotografia mais iluminada, contribuindo para o clima alegre do filme. A montagem é espetacular, conseguindo fazer com que os 140 minutos de projeção “passem voando”, imprimindo um ritmo perfeito à narrativa.
A trilha sonora da fita também é muito bacana, incluindo Lady Gaga e Red Hot Chilli Peppers. Não digo que todas as músicas da película são perfeitas, pois esta acaba com um dueto entre Jaden Smith e Justin Bieber, algo que, ainda bem, só acontece nos créditos. Por falar nos créditos, vale a pena aguentar o showzinho da dupla da escola só para ver as fotos da produção, uma tradição dos anos oitenta, que é honrada aqui.
Com uma história divertida, cativante e emocionante, além de contar com lutas bem coreografadas e atuações excelentes, “Karate Kid” é uma das surpresas do ano e irá agradar tanto aos fãs do original, quanto à nova geração. Confesso que àlgum tempo eu não tinha a sensação de me emocionar tanto no cinema como o fiz no remake de “Karate Kid”, foi difícil conter as lágrimas em pelo menos 3 momentos do filme, que é claro não vou citar aqui, rs. Além disso, após o fim da projeção, a sessão que estava lotada foi aplaudida pelos espectadores, algo que a muito tempo não vejo em salas de cinema, e isso mostra que o longa não só foi bem produzido e dirigido, mas também deve ser unanimidade por parte do público!
Nota 10!!!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A epidemia (The crazies)


Zumbis são sempre divertidos. Essa é uma premissa infalível para qualquer gênero de cinema ou época de produção. Seja enquanto rasgam um pescoço a dentadas, nos filmes de horror, ou quando aparecem com um naco de braço pendurado entre os dentes, nas comédias escrachadas; os mortos-vivos ganharam variações técnicas, físicas e intelectuais e tornaram-se garantia de um bom e fiel público.
Partindo de George A. Romero, maior expoente do gênero, os zumbis ganharam popularidade e caíram no gosto comum. Seu “A Noite dos Mortos-Vivos”, de 1961, entrou para a seleta lista de filmes trash cultuados pelo público, e suas características ainda influenciam produções recentes. Prova disso é “A Epidemia”, refilmagem do clássico “O Exército do Extermínio” (1976), quarto filme de Romero. Com roteiro semelhante ao original e exibindo um caráter técnico um tanto antiquado, essa nova versão é fiel ao seu antecessor e, justamente por isso, igualmente divertida
Em “A epidemia”, observamos a tentativa de fuga de quatro moradores de uma cidade do interior dos Estados Unidos. O xerife do local (Timothy Olyphant), sua esposa (Radha Mitchell), um policial (Joe Anderson) e uma adolescente (Danielle Panabaker) tentam escapar de um vírus espalhado pelo sistema de abastecimento de água da cidade. Ao mesmo tempo, precisam fugir dos seus vizinhos, transmutados em zumbis sádicos após a ingestão da água, e de um exército policial enviado pelo Governo para deter a proliferação do vírus para além dos limites da cidade.
Particularmente sou fã de filmes que envolvem zumbis e por isso fui assistir a “A epidemia”, esperando um filme repleto de clichês e situações comuns em filmes que envolvem mortos-vivos, pois bem, o filme é sim repleto de clichês e peca pela falta de inovação, porém, me surpreendeu pela forma em que a abordagem foi discutida e principalmente pela maneira em que a história se decorreu, culminando com um desfecho amplamente satisfatório. “A epidemia” ganha pontos pelas sequências eletrizantes e sustos bem distribuídos e posicionados na trama.
O filme já começa em grande estilo ao retratar em sua primeira cena a ação de um “homem” (pseudo-zumbi) invadindo um jogo de beisebol com uma espingarda, ameaçando as pessoas que ali estavam....não falo mais nada sobre a cena pra não estragar a surpresa que sucede-se. Eu citei esse trecho do longa para mostrar que já de cara, no início da projeção, o diretor Breck Eisner explora a temática “vírus-zumbis” de forma inesperada, através de uma situação que gera tensão e ansiedade no público, e isso continua a acontecer ao longo do filme, com momentos perturbadores e impactantes, através de um jogo de câmeras que em certos momentos apresenta-se de forma desfocada, proporcionando maior realidade à trama, com momentos sufocantes e bastante tensos.
O roteiro é enxuto, sem espaço para ramificações e narrativas paralelas. Vez por outra algum novo personagem ainda não infectado acompanha o grupo do xerife, mas sua participação é sempre limitada a poucos minutos de duração. E se a trama gira em torno de uma história simples e exaustivamente utilizada por outras produções, o que resta ao diretor Breck Eisner é apostar em cenas bem elaboradas de tortura e litros de sangue que escorrem como água, e é neste ínterim que “A epidemia” se destaca, através da criatividade e realismo do jogo e focagem de câmeras em praticamente todas as cenas do filme, principalmente àquelas mais tensas que envolvem fugas, mortes e ataques. É neste momento que Eisner e sua equipe de produção acertam em cheio, caracterizando um projeto que deve agradar aos fãs do cinema de horror.
As opções de enquadramento e ângulos de câmera remetem ao filme original de Romero, com suas sequências tremidas e imagens explícitas dos momentos de morte. Eisner soube conciliar o tradicionalismo técnico que já foi “testado” por Romero, com a atualidade do estilo que consagrou filmes como os da franquia “Jogos Mortais” e “O Albergue”. Por utilizar o que há de melhor nas duas épocas, o hibridismo técnico de Eisner funciona e garante dinamismo durante toda a projeção.
Destaco também a trilha sonora do filme, com a representativa música folk de Johnny Cash em seus minutos iniciais, e os acordes inquietantes elaborados para as sequências de tensão, dão o tom certo para a pacata cidade “caipira” vítima da barbárie de seus próprios moradores. A música também “embala” as fugas e o desespero dos personagens, carentes de uma boa interpretação por parte de alguns atores.
O protagonista Timothy Olyphant (David Dutton) não consegue escapar do amadorismo que permeia algumas atuações do cinema de horror. Embora seu personagem, o xerife da cidade, desperte simpatia imediata no público, sua interpretação não consegue atingir o equilíbrio exigido pela narrativa. Então, o que vemos é um excesso de expressões exageradas e caras retorcidas, que destoam até mesmo do clima naturalmente descomedido da produção, mesmo assim a atuação de Olyphant não chega a comprometer o longa.
O destaque vai para o trabalho seguro de Radha Mitchell (Judy Dutton) e Joe Anderson (Russel Clank). Os dois mostraram versatilidade para assumir papéis importantes em gêneros opostos. Ela já havia conseguido oferecer ao público atuações convincentes na comédia dramática “Melinda e Melinda” e no horror “Terror em Silent Hill”. Anderson, menos conhecido do grande público, participou do recente “Amélia” (filme que não assisti, mas na qual li comentários excelentes sobre a atuação do ator), e agora comprova seu talento em um gênero diferente.
“A epidemia” é uma grande surpresa do gênero, e apesar de mostrar uma temática já batida, oferece meios de intrigar o público através da sucessão de fatos e pela forma como são caracterizados e discutidos. Como um bom filme de zumbis, seu mérito está na caracterização dos mortos-vivos, nas sequências de fuga e nos inúmeros sustos bem espalhados por toda a narrativa, um filme tenso, que assusta, com cenas e mortes criativas, momentos de perversão e violência, situações de desespero e momentos aflitivos.
Um filme que certamente merece ser apreciado pelos fãs do gênero e que compõe uma grata e satisfatória surpresa! Altamente recomendado. Nota 9!

sábado, 21 de agosto de 2010

Os Mercenários (The Expendables)


É uma alegria e satisfação imensa ter vindo de uma sessão onde astros de filmes de ação dos anos 80 estão reunidos, eu simplesmente pirei, dividindo a mesma telinha estão: Sylvester Stallone, Mickey Rourke, Jason Stathan, Jet Li, Dolph Lundgren, e com participações especiais de Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis e por aí vai, uma constelação de astros que certamente nos marcou em alguma época de nossas vidas com seus de filmes de ação, recheados de explosões, tiros e batalhas. Que fã de filmes de ação não gostaria de ver tantas estrelas de filmes deste gênero reunidos em um só? Espetacular e apesar de alguns problemas, “Os mercenários” me emocionou ao me fazer lembrar dos filmes de duas décadas atrás envolvendo tais atores como protagonistas, filmes estes que marcaram minha vida e fizeram com que o gênero ação fosse um dos meus prediletos.
A sinopse é simples, “Os mercenários” conta a história de um grupo de guerreiros (mercenários), com o objetivo de se infiltrarem em um país da América do Sul e lutarem contra um cruel ditador, provocando sua queda, e assim libertando a população local.
Uma coisa que achei muito bacana em “Os mercenários” é o enfoque surpreendente, mas nem tanto, que Stallone dá ao filme: a questão da humanidade. É estranho que alguém faça uma fita de ação tão barulhenta que se preocupa de verdade com o íntimo de seus personagens. Não é estranho, por outro lado, que Stallone seja o diretor e co-roteirista dessa mistura aparentemente incompatível. Os filmes de seu personagem mais célebre, “Rambo”, são exatamente sobre o uso e desprezo de homens transformados em máquinas de guerra, ou seja, “descartáveis”, uma das traduções de “Expendables”.
Aqui, eles não tentam sair dessa vida, evitando apenas perder completamente a sensibilidade perante as atrocidades que acompanham seu ganha pão. O mais interessante arco dramático é o de Christmas (Statham), que culmina em uma cena que é boa não pela sacada bacanuda da bola de basquete, mas porque mostra que resta algo humano dentro do assassino. Mais impressionante ainda é a passagem em que o amigo dos mercenários, Tool (Mickey Rourke), relembra um evento de quando ainda aceitava missões. O monólogo traz uma angústia inimaginável graças à importância que o diretor dá ao instante e à sinceridade dilacerante do ator.
É também pelo senso de humor que os homens tentam provar que não são apenas “monstros”, como se vê nas reivindicações de Ying (Li). Ele não consegue, obviamente, já que quer mais dinheiro por motivos um tanto hilários e, por isso, precisa continuar sendo um mercenário. Poucos conseguem se afastar desse círculo vicioso de violência, e se Stallone realmente se preocupa com os que tentam, também não dá nada para Hale, Toll e Ying além de brutalidade, piadas espirituosas e camaradagem de bar.
Vale um importante destaque e menção às cenas de ação: lutas, tiros e principalmente explosões. São cenas muito bem produzidas e reais, vale mencionar aqui a cena do avião em que primeiro Christmas (Stathan) metralha do alto seus inimigos, e depois, com gasolina e fogo, acabam por dizimar os membros inimigos envolvidos na cena. Algumas cenas são violentas e até nos fazem lembrar do último filme de Stallone “Rambo IV”, mas isso não tira os méritos do filme, até porque a violência não é a prioridade ímpar do longa, pelo contrário, a ação violenta, divertida e ensurdecedora dá espaço para questionamentos muito bem inseridos e interessantes. As pausas são perceptíveis, especialmente na cena de Toll (Rourke) e no clímax, e não dá pra dizer outra coisa menos piegas: o filme prova ter um coração. É uma grata surpresa que uma constatação tão “sentimental” possa ser feita sobre a maior explosão de testosterona e adrenalina do ano.
Apesar de alguns problemas serem observados: As reviravoltas no roteiro são previsíveis, as cenas de ação um pouco aceleradas e “escuras”, os conflitos dos personagens são clichês... não podemos tirar os méritos de “Os mercenários”, até porque problemas como estes estão presentes frequentemente em filmes do gênero e mesmo assim estes filmes nunca deixaram de nos divertir e nos empolgar pela forma como são conduzidos e pelos desfechos, onde um herói derrota seu inimigo e torna-se o “rei” de um povo... isso tudo é clichê? Sim, e daí? Ao longo dos anos fomos crescendo, vendo e nos acostumando a filmes com essa premissa, e eu, pelo menos não tenho preconceito e não tenho do que reclamar, porque é um gênero que gosto muito.
É importante destacar também as cenas de humor, onde Stallone insere momentos engraçados, com declarações cômicas e brincadeiras que fazem o espectador gargalhar. As cenas de diálogos envolvendo Jet Li são quase todas hilárias, e o encontro entre Willis, Schwarzenegger e Stallone é marcante, uma cena séria e ao mesmo tempo provocadora de risos, encerrando-se com um ato (dizer) brilhante. Parabéns a Stallone, que além de explorar muito bem o lado humanitário do filme, nos garantiu também momentos de diversão. Stallone mostrou que filmes do gênero não precisam envolver somente violência, sangue, explosões e morte, uma pitada de humanidade aliado ao senso de humor, trazem grandiosidade maior à produção.
Um filme que recomendo, principalmente às pessoas que gostam do gênero ação. Não tem como perder um filme que envolve todos os astros de ação da década de 80, astros estes que fizeram parte de produções que marcaram nossa adolescência e nosso crescimento. Muuuito boom, é um encontro de heróis, onde a premissa “Um por todos, todos por um” é levada a sério, excelente!
Nota 9!!

sábado, 7 de agosto de 2010

"A origem" ( Inception)


Gosto de fazer minhas críticas logo após ver aos filmes, até porque consigo ter a idéia mais clara em mente para debater as nuâncias que cada história nos oferece. Porém, neste “A origem”, preferi relaxar, descansar e principalmente pensar, pensar muito, deixando assim, a crítica para o dia seguinte, a fim de que eu pudesse raciocinar, refletir e ir “digerindo” aos poucos a complexidade da trama.
Não é a toa que Cristopher Nolan é hoje, na minha opinião, o melhor e mais polêmico diretor de Hollywood, melhor porque em sua lista de filmes, 7 no total, 3 estão entre os maiores de todos os tempos (segundo lista do IMDb), polêmico porque suas temáticas são sempre muito detalhistas, profundas e principalmente “malucas”, são visões e pontos de vista capazes de gerar aquele tipo de sentimento 8 ou 80 no espectador, ou seja, ame ou odeie, os filmes de Nolan não tem o “meio termo”.
“A origem”, novo longa do diretor, é um filme que segue a premissa acima, mas acredito que a maioria do público vai amá-lo. É um filme não recomendado àquelas pessoas que buscam somente entretenimento, até porque a história é complexa e envolve extrema atenção a todos os detalhes, a ponto de que uma pequena distração pode nos levar a ter problemas de interpretação e entendimento. Sendo assim, recomendo extrema atenção ao filme, em cada detalhe e reviravolta.
E por que “A origem” é um filme difícil? Justamente porque é nele que Nolan expõe sua temática predileta de forma intensa, profunda e complexa: A temática da mente humana. Em outros filmes do diretor (Amnésia, Insônia e O Cavaleiro das Trevas) essa temática já havia sido explorada, porém, de maneira superficial. Em “A origem”, Nolan “esmiúça”, detalha e aprofunda a temática da mente humana e do inconsciente, inserindo o espectador em um universo completamente desconhecido e alternativo, uma viagem ao profundo do pensamento humano, a uma realidade subjetiva do protagonista da trama, ao mundo dos sonhos, ou ainda mais, ao sonho dentro de um outro sonho, como se fosse um reflexo de espelhos.
A sinopse é mais ou menos a seguinte: Cobb (Di Caprio) é um ladrão incomum, pois rouba os sonhos de suas vítimas. Os sonhos não no sentido de anseios e desejos, mas desses que se têm quando as pessoas dormem, pensamentos que repousam no inconsciente. Por meio de um aparato tecnológico, ele é capaz de invadir as mentes e tomar posse das idéias mais íntimas das vítimas. O personagem é contratado por um grande empresário (interpretado por Ken Watanabe) para, no lugar de roubar, implantar uma idéia durante os sonhos de seu adversário, vivido pelo ator Cillian Murphy. Para essa empreitada, Cobb recruta uma equipe de alta competência no assunto, a fim de construir as realidades oníricas e fazer o que bem entender com a mente adormecida de sua vítima.
A partir daí galera, a palavra de ordem é manter-se atento ao que acontece na telona, não só para não perder os detalhes da história, mas também pela tremenda experiência visual proporcionada pelo filme. Experiência visual? Já que estamos falando dela, então aqui vai minha primeira crítica positiva ao novo filme de Nolan. Sabemos que no mundo dos sonhos tudo é possível, a realidade do inconsciente humano é capaz de criar situações ou ambientes inimagináveis, e Nolan explora muito bem esta premissa, através da criação de cenários surreais, impecáveis e vislumbrantes. O fantástico design de produção se encarrega de dar vida a ambientes que, mesmo trazendo uma aparência sólida de realidade, freqüentemente surpreendem ao revelar níveis de insuspeita complexidade, como a “escadaria infinita”, o limbo arquitetado por Cobb ou a luxuosa edificação que abre a narrativa. É uma experiência fascinante, onde nossos olhos “agradecem”.
Um dos aspectos mais fascinantes deste intrigante conceito de invasão de sonhos ou ainda viagem ao inconsciente humano reside na idéia, perfeitamente explicada pela neurologia, que a identifica como um mecanismo de proteção do sono, de que fatores externos à mente possam influenciar os eventos presentes no universo onírico. Assim, sons, cheiros e movimentos detectados pela pessoa em repouso podem ser traduzidos em detalhes dos sonhos exatamente como o toque de um despertador muitas vezes é absorvido e transformado num som “reconfigurado” pela mente adormecida, algo que Nolan emprega ativamente no filme, por exemplo, ao trazer uma chuva torrencial como conseqüência da vontade do “sonhador” de ir ao banheiro ou, num dos melhores momentos da trama, ao enfocar um hotel que deixa de respeitar as leis da gravidade em função da situação caótica na qual se encontram as pessoas em cujos sonhos aquele prédio se encontra. E eis que neste ínterim, é válido novamente destacar a grandiosidade dos efeitos visuais do filme.
Outro grande mérito de “A origem” está no fato de não simplificar sua narrativa para o espectador, fazendo com que este conecte os fatos e fique atento aos detalhes. O longa envolve níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos (algo que fica claro na seqüência que abre o filme), também descobrimos que o tempo tem duração diferente dependendo da profundidade na qual os personagens se encontram. É uma obra complexa, porque além de manter a ação num ritmo constante e frenético, enfoca ações paralelas que se passam em ambientes com regras próprias quanto à duração dos eventos que abrigam. Mesmo assim, Nolan e sua equipe de produção esmiuçaram cada situação e detalhe, fazendo com que apesar de complexa, a narrativa se tornasse clara à medida que os eventos sucediam-se. Aliado à magnitude e grandeza do roteiro e efeitos, é importante destacar também a trilha sonora do filme, que confere uma atmosfera sinistra e sombria à trama, desde suas cenas inicias.
Contando com um elenco admirável, Nolan extrai de seus atores os atributos necessários para que cada personagem desempenhe um papel preciso e importante na história: DiCaprio (brilhante), surge tenso e gradualmente mais angustiado e inseguro à medida em que a projeção avança, ao passo que Joseph Gordon-Levitt, como Arthur, exibe uma firmeza de ação que mantém o público sempre convencido de sua competência e de sua importância para os planos do parceiro. Marion Cotillard, por sua vez, encarna, uma femme fatale que poderia ter saído diretamente de um noir, enquanto Ellen Page, como uma jovem que ganha a oportunidade de realizar o sonho de qualquer arquiteto (literalmente, neste caso), evita se tornar apenas a personagem “novata” que, como tal, é usada exclusivamente como recurso expositivo para esclarecer conceitos para o espectador; em vez disso, ela se torna peça importante ao fazer jus ao nome e auxiliar os demais em suas trajetórias dentro dos sonhos.
Outro fato curioso a se ressaltar é que Nolan faz inúmeras referências que precisam ser pensadas cuidadosamente. Um exemplo é o nome da personagem de Ellen Page, Ariadne, que é a responsável pela arquitetura dos sonhos. Na mitologia grega, Ariadne ajuda Perseu a vencer o Minotauro, auxiliando-o a se localizar em um labirinto. Ou seja, há uma agregação entre o mundo real, o mundo dos sonhos e o mundo das fábulas, tornando o universo do filme ainda mais complexo e intrigante.
Respeitando o espectador ao não insistir em interromper a narrativa periodicamente para mastigar os acontecimentos, Christopher Nolan mantém esta confiança até o instante final da projeção, evitando um desfecho auto-explicativo que simplifique e resolva tudo para o público que, assim, sairá do cinema discutindo ativamente o significado do que acabou de testemunhar (incluindo, claro, a cena final). Isto não quer dizer, porém, que “A Origem” não se resolva; a diferença é que, graças à complexidade de sua narrativa, o filme permite múltiplas conclusões igualmente satisfatórias.
A Origem junta-se ao seleto grupo dos filmes que exploraram com primor a mente e/ou universos paralelos e realidades alternativas, como “Matrix” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. É um filme cheio de conceitos e passível de inúmeras leituras. É bem verdade que muitas dúvidas foram plantadas na minha cabeça depois de assistir ao filme, mas não tem problema, irei assistí-lo novamente para sanar estas questões (eis uma desculpa esfarrapada para ver mais uma vez esta obra-prima, este filme grandioso em todos os sentidos). O melhor filme do ano, um dos melhores que assisti em minha vida, um cult. “A origem” já entrou para a história como um dos maiores filmes de todos os tempos!
Nota mil? Como essa notação não existe, então dou dez! Brilhante, simplesmente: sensacional!