segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger)


Como produtora independente, deve-se ressaltar que a Marvel Studios ainda está para errar. Não que as parcerias com os grandes estúdios tenham levado ao cinema somente fracassos. Filmes das franquias “Homem Aranha” e “X-Men” estão aí para provar o contrário. Mas o fato é que a recente carreira solo da Marvel tem evitado que desastres como “Elektra”, “Quarteto Fantástico” e “Motoqueiro Fantasma” se concretizem. Pelo menos não somente em suas mãos. “Capitão América: O Primeiro Vingador” chega para confirmar tal constatação. Trata-se de um agradável entretenimento, cheio de ação, um pouco de comicidade e romance, como uma boa adaptação dos quadrinhos deve ser.
Como está se tornando praxe este ano, mais um blockbuster apropria-se da História para fincar sua trama, dessa vez trazendo inegável qualidade. Estamos na 2ª Guerra Mundial (Assim com em X-Men: Primeira Classe). A Alemanha de Hitler desafia boa parte do restante do mundo. Enquanto isso, os Estados Unidos recrutam jovens para partirem para os campos de batalha na Europa. Esse é o maior desejo do nova-iorquino Steve Rogers (Chris Evans). A sua coragem, porém, é inicialmente vencida pelo seu corpo franzino e sua saúde debilitada, sendo rejeitado diversas vezes no primeiro processo de seleção para tornar-se militar.

A maior virtude do garoto, no entanto, é observada pelo doutor Abraham Erskine (Stanley Tucci), um cientista alemão que agora serve ao governo americano. Ele vê em Rogers a pessoa ideal para aplicar um ousado experimento que pode ser decisivo na vitória sobre os nazistas. Logo nasce o Capitão América, que já pouco depois torna-se herói por todo o território americano. Mas além de servir como símbolo, ele precisa agir. E é o que faz ao partir para a Alemanha e desafiar Johann Schmidt (Hugo Weaving), um lunático recrutado pelo próprio Hitler que agora quer fazer sua própria história ao utilizar forças mitológicas que lhe concedem incrível força e vantagem sobre os inimigos.
É ele, Schmidt, ou o Caveira Vermelha, um dos principais atrativos e acertos do filme. O roteiro (de Christopher Markus e Stephen McFeely) concede tempo e espaço devidos ao personagem, permitindo que ele seja uma afronta adequada para Steve Rogers. Ele não é daqueles vilões que servem apenas de alavanca para o crescimento do herói. Na verdade, o Capitão América nem é o seu alvo. A pretensão dele vai além. Quer dominar o mundo, como desejava o seu mentor. Boas justificativas tecnológicas diminuem o estereótipo, o que Hugo Weaving também é mestre em fazer. O ator concede um charme extra a Schmidt, que o torna mais marcante do que o próprio rival.
E aqui está a razão que faz do longa não se tornar um marco nas adaptações dos quadrinhos. Temos como protagonista um jovem de pouco carisma, patriótico demais, dono de personalidade extremamente comum. Ele até possui semelhanças com Peter Parker, pelo jeito tímido e desengonçado. Mas o roteiro e a atuação até certo ponto apática de Chris Evans (justamente aquele que havia sido o mais expressivo do Quarteto Fantástico) não possibilitam qualquer identificação do público com ele. Algumas sequências até buscam colocar questionamentos na mente de Rogers, porém ele continua a ser alguém demasiadamente passivo, que aceita fazer tudo, desde que pelo bem de seu país. Eis um super herói “diferente”, aquela personalidade “malandrona”, de querer se dar bem às custas dos outros, de querer se impor e ser o melhor, não existe em “Capitão América”. Eis que Steve Rogers é um anti-herói? No filme, podemos claramente observar que a resposta para esta pergunta é: Sim.
A situação não fica pior porque “Capitão América” traz a melhor história de amor já saída dos quadrinhos para o cinema. Não há precipitações no nascimento e desenvolvimento da relação do herói com Peggy Carter (interpretada pela ótima Hayley Atwell), a sargento britânica linha dura que odeia homens brutos e é bastante comprometida com o seu trabalho. Os clichês, que vão desde um flagra que ocasiona uma crise de ciúmes até o primeiro beijo em situação bem desfavorável, são administrados com saldos pela direção de Joe Johnston (“O Lobisomem”). Ele sabe que se trata de uma paquera boba e inocente e dá uma delicadeza agradável que ajuda na sensação de que estamos diante de algo clássico. A última frase do filme demonstra que o diretor e o roteirista tinham consciência da importância que a trama amorosa possuía.
O mesmo Johnston entrega um trabalho seguro, com poucos riscos e, consequentemente, erros. Os exageros acontecem, mas todos advindos da natureza do Capitão América, incapaz de dar um chute que derrube seu inimigo a menos de cinco metros de distância. O cineasta tem excelente domínio do ritmo da narrativa, incluindo a bem orquestrada ação gradual, para depois vir com o convincente clímax. Johnston acerta ao aumentar a duração do filme e permitir que o primeiro ato se alongue até que toda a história se desenvolva adequadamente e, assim, toda a correria exigida por um blockbuster ( ou melhor, um filme “pipoca”) possa acontecer sem prejuízos à trama. O diretor conta também com a ajuda da equipe técnica, que traz efeitos especiais que não comprometem e fiéis reconstituições que nos levam aos anos 40, sempre com pouco esbanjamento.
Não se pode ignorar o elenco de coadjuvantes de “Capitão América”. Em especial, Tommy Lee Jones destaca-se por sua comicidade leve, mas que ajuda a descontrair o teor sério da trama. Toby Jones e Stanley Tucci também participam, constatando que a seletividade desses competentes atores não vem ignorando os feitos obtidos seguidamente pela Marvel Studios. Com mais uma grande produção, mas dando uma sensação de que ainda tem muito a mostrar, o estúdio prepara o terreno para o seu projeto mais ambicioso, “Os Vingadores” (que promete ser o filme de 2012, juntamente com o retorno do Cavaleiro das Trevas). Que sigam acertando!
Grande surpresa: nota 10!


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Transformers - O Lado Oculto da Lua (Transformers - The Dark of The Moon)


A franquia “Transformers” até que começou bem. Em seu primeiro longa, Bay garante um teor emocional interessante ao incorporar à história uma bonita amizade entre o menino (Labeouf) e seu amigo alienígena (bumblebee) em meio à guerra entre Autobots e Decepticons, ou seja, o filme tinha “alma” e não era dotado somente de explosões por todos os lados ou ainda piadas sem graças repletas de clichês. Infelizmente o que “Transformers” conseguiu através de seu carisma e simplicidade, foi jogado no lixo com suas duas sequências, atingindo seu auge de mediocridade em “Transformers (3): O Lado Oculto da Lua”.
“Transformers (3): O Lado Oculto da Lua” é um tipo de filme na qual as pessoas que adentram a sala escura precisam “desligar” seus cérebros, e se contentem somente com a técnica. Porque não há nada além de bom a ser apreciado na continuação da já fracassada franquia de Michael Bay.
Não que se esteja cobrando uma história inteligente, que intrigue e provoque reflexões. Mas uma trama plausível, minimamente interessante, que ao menos respeite um fato histórico, é o recomendável. Este ano, “X-Men: Primeira Classe” provou que isso é sim possível. No entanto, as pretensões de Bay fogem de qualquer interesse intelectual. Jogar seus robôs contra prédios, fazê-los se atracarem e se perseguirem pelas ruas, e ainda tentar tirar alguma graça disso tudo, é o medíocre e único objetivo do longa. Se você se satisfaz só com o que foi citado, “sorte” a sua. “Transformers 3” é a sua melhor opção nos cinemas.
Não que ela interessa, mas a sinopse gira em torno da já batida rivalidade entre Autobots e Decepticons. Desta vez, o roteiro (que até começa surpreendente, mas depois...deixa pra lá) de Ehren Kruger ousa utilizar em seu favor (o que acaba virando um boicote) a badalada ida do homem à lua, causada aqui pela queda de uma espaçonave vinda de Cyberton, o planeta dos robôs. Décadas depois, então, uma série de estranhos acontecimentos levam a inteligência americana, Optimus Prime e companhia a resgatar a espaçonave, que na verdade é Sentinel Prime. Mas tudo não passa de uma estratégia dos Decepticons. Para quê? Uma breve olhada no currículo do diretor dá o spoiler por si próprio(Uma dica: tátátátátátátátátátátátá pra todo lado, kkkkk).
Cineasta que melhor representa o lado negro de Hollywood (entenda como aquele preocupado exclusivamente com bilheteria), Michael Bay entrega um trabalho no padrão que vem estabelecendo desde “Os Bad Boys” (1995): correria seguida de correria, a qual coloca em jogo a vida de muita gente, quando não de toda a humanidade. Aqui ele surge mais descontrolado do que nunca. E o roteiro de Kruger coopera para tanto. É megalomaníaco ao extremo, ao ponto de trazer um dos mais longos e torturantes clímax finais dos últimos anos, encerrado da maneira mais óbvia possível. Quase 1 hora de clímax conclusivo, com uma poluição visual estenuante e que deve cansar até mesmo os admiradores ferrenhos de efeitos especiais e visuais, ou seja, até mesmo a parte técnica do filme é cansativa.
Se tiros, tiros e mais tiros não forem suficientes para você, satisfaça-se com lutas com alto grau de agressividade (entre robôs, claro) e estranhos vôos humanos. Sim, temos personagens humanos que voam entre prédios destruídos, escapando, claro, por um triz de um trágico destino. O triz, aliás, repete-se recorrentes vezes na película. Experimente contar quantas vezes o inimigo fica a um passo de sair vencedor. O “inesperado”, porém, faz questão de salvar os heróis. Na verdade, o trágico só acomete os infelizes coadjuvantes, com os quais pouco temos contato, evitando qualquer grande decepção emocional por parte do espectador. Ou seja, clichês, clichês e mais clichês, indefinidamente.
Em termos narrativos, o roteiro pode até surpreender inicialmente com a pretensiosa inclusão da histórica missão de Apollo 11, com reconstituições do espaço lunar e de pronunciamentos presidenciais que não fazem feio. O passar dos minutos, no entanto, revela que o uso do fato que deu início à corrida espacial foi feito em vão, sendo um mero utensílio comercial que não encontra diálogo com o restante da trama. Um verdadeiro desrespeito para com os envolvidos com esse reelevante fato da história americana. Um desperdício deixar de lado um fato tão marcante da história mundial em detrimento à premissa baseada nos sinônimos da palavra ação: correria, pancadaria, mortes e destruição.
Ao protagonista Sam (Shia LaBoeuf) é concedida uma participação menos relevante do que a das produções anteriores. Ele continua a se arriscar por seus amigos robôs, mas nada pode fazer, além de correr, quando toda a pirotecnia de Michael Bay toma conta do filme. Na verdade, Sam até possui alguma importância no primeiro ato, nos melhores momentos do filme, quando o roteiro exibe seus esforços para conseguir o primeiro emprego, enquanto a apaixonada namorada se sai bem melhor financeiramente do que ele. Por sinal, Rosie Huntington-Whiteley substitui sem prejuízos Megan Fox, porém, assim como Megan, não convence no papel de namorada do protagonista.
O elenco tem ainda um time de respeito, que costumava ser bem seletivo em suas escolhas até aceitarem participar de “Transformers 3”. Frances McDormand, John Turturro e John Malkovich escolhem as mais exageradas caricaturas para encarnarem seus personagens. Todos têm uma função cômica embaraçosa, tom que o roteiro insiste em incluir em demasia. Já Patrick Dempsey (o vilão humano protagonista) é responsável por um dos piores e, certamente, o mais previsível personagem do filme.
A única e obrigatória menção honrosa do filme se refere ao uso da tecnologia 3D nas cenas de ação, sendo este o filme já lançado que melhor explora tal tecnologia Nesse quesito, “O Lado Oculto da Lua” não só supera seus antecessores, como traz os mais embasbacantes efeitos já produzidos, que ficam ainda mais impressionantes em 3D. Destruindo Washington e, principalmente, Chicago, Bay usa e abusa da câmera lenta, a mesma velocidade de raciocínio que exige de seu público.
Tecnicamente irrepreensível, mas terrível como experiência cinematográfica, “Transformers – O Lado Oculto da Lua” conta com personagens demais, muitas subtramas, alívios cômicos toscos em excesso e um roteiro sem envolvimento emocional. É um ótimo comercial para os usos efetivos do 3D, nada mais que isso. Nota 5!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class)


Mutação é a chave para a evolução (esse tema é bacana, kkkk). O problema é que nem todas as mutações são benignas, as variações genéticas dos organismos podem promover adaptações destes ao ambiente em que encontram ou levá-los à extinção. O viés desta introdução não é porque sou fascinado no assunto, mas simplesmente porque tem tudo a ver com a temática da franquia X-Men. Quando a franquia “X-Men” migrou para os cinemas, o talentoso cineasta Bryan Singer entregou aos fãs e ao público em geral dois ótimos filmes. O terceiro capítulo foi dirigido por Brett Ratner (o mesmo de “A Hora do Rush”) e não foi um longa ruim, mas focou demais em entregar coisas que apenas os fãs desejavam ver. Em seguida veio “X-Men Origens-Wolverine” e o clima sério que permeava as películas anteriores ficou em segundo plano e o resultado foi um pouco aquém do esperado, com qualidade inferior aos capítulos iniciais.
Chega agora às telas este “X-Men-Primeira Classe”, com Singer assumindo a posição de produtor e com o também talentoso Matthew Vaughn (do excelente“Kick-Ass - Quebrando Tudo”) na cadeira de diretor e co-roteirista. Respeitando (ao menos parcialmente) o que foi mostrado na trilogia original e basicamente jogando no limbo a fita-solo do Wolverine, esta nova produção recoloca, de modo surpreendente, os mutantes na linha.
Misturando ficção e fatos históricos, a trama nos conta como, em meio à crise dos mísseis em Cuba em 1962, Charles Xavier (James McAvoy) e Erik Lensherr (Michael Fassbender) vieram a se tornar os rivais Professor X e Magneto. Enquanto o jovem Lensherr não conheceu nada em sua infância além de horrores nas mãos dos nazistas, crescendo com nada além de vingança contra seus algozes em sua mente, Xavier foi criado em um ambiente abastado, podendo explorar seus dons e, a despeito de compreender o preconceito, abraça uma doutrina pacifista.
As jornadas dos dois acabam se cruzando de maneira explosiva enquanto caçam, por motivos distintos, um aristocrata chamado Sebastian Shaw (Kevin Bacon), que deseja começar a Terceira Guerra Mundial com a ajuda de seu “Clube do Inferno”. Contando com um auxílio instável vindo da CIA, Charles e Erik começam a reunir (e em conseguinte recrutar) outros mutantes ao redor do mundo com o objetivo de deter Shaw. No entanto, o modo de pensar dos dois amigos poderá colocá-los em uma rota de colisão.
James McAvoy faz um trabalho excepcional em afastar Xavier da aura de santo que o personagem tinha quando vivido por Patrick Stewart, mostrando-o como um jovem excepcionalmente inteligente e compassivo, mas também muito humano, gostando de se divertir e paquerar, em uma nova e interessante visão do Professor X.
No entanto, o filme é realmente de Michael Fassbender, que transforma o seu Erik na figura mais fascinante da franquia, respeitando o trabalho de Ian McKellen, mas acrescentando um rancor e uma ira que comovem a platéia, nos compadecendo com o sofrimento que este experimenta e tornando compreensível o ódio no coração do futuro Magneto. Impossível não notar o paralelo entre as ações de Erik no começo do filme com as dos Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino, principalmente em uma cena em um bar na Argentina (é Tarantino fazendo história, aliás, essa cena do bar é mto bacana).
Mesmo com o destaque dado aos dois principais jogadores da saga, os demais personagens não estão em cena como mero enfeite, cada um exercendo seu papel dentro da narrativa. A indicada ao Oscar Jennifer Lawrence hipnotiza o público com sua Raven, com seu desejo de aceitação sendo algo palpável para o público e sua vontade de se relacionar com alguém que a compreenda sendo fundamental para a mensagem do filme.
O arco de Raven bate de frente com o do jovem Hank McCoy, vivido com intensidade por Nicholas Hoult. Hank nos é apresentado como um jovem brilhante, mas que não se vê como um indivíduo realizado justamente por conta de sua mutação, que lhe passa uma imagem animalesca. O fruto do desejo de normalidade do rapaz não deixa de ser tragicamente irônico.
Outro destaque no elenco é Rose Byrne, como uma intrépida e visionária agente da CIA que age como contato de Charles e Erik com a agência. O ótimo Oliver Platt também participa do longa como um dos aliados de Charles, sendo uma pena que apareça tão pouco haja visto seu talento diante das câmeras.
Do outro lado da cerca, os destaques são obviamente o Sebastian Shaw (de Kevin Bacon) e sua Rainha Branca, Emma Frost (January Jones). Bacon vive Shaw como um perfeito vilão de James Bond, megalomaníaco, audaz e com uma presença forte. O ator nos dá uma interpretação energética como Shaw, nos mostrando exatamente o sadismo e a loucura do vilão.
Apesar de não ser um filme desprovido de senso de humor, em nenhum momento a fita tende para piadinhas ou situações irônicas, Vaughn leva seus personagens a sério, conseguindo criar um clima de tensão constante, mostrando na tela o drama daquelas pessoas especiais (se aliar aos humanos ou enfrentá-los? É bom ou não sermos “diferentes”? essa minha mutação deturpa minha identidade como ser humano? minha mutação é ou não benéfica a mim e ao próximo?), sem esquecer de entregar cenas de ação fantásticas, com destaque para a invasão de Erik a uma casamata Soviética e o ataque do Clube do Inferno a uma instalação do governo americano. Todo esse contexto culmina num desfecho plenamente satisfatório e emocionante.
É importante salientar também que há duas pontas no filme referentes à personagens dos filmes anteriores que farão com que os fãs soltem um: óóóóóóó!!! Quando estas cenas apareceram à tela, ouviu-se um murmurinho na sala (que estava lotada por sinal).
Inteligente, divertido e empolgante, “X-Men-Primeira Classe” é um recomeço arrebatador para a franquia, com essa mutação se mostrando uma bela evolução para a série. Na minha visão, o melhor filme da franquia.
Nota 10!!!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Enrolados (Tangled)


Os estúdios Disney chegaram bem ao seu 50º filme de animação, “Enrolados”. Assumindo os traços de uma megacorporação do entretenimento, a empresa parece cada vez mais sintonizada com as demandas do seu público, variado e inconstante após a sucessão de gerações. O desafio mais urgente, talvez, seja o resgate da parcela de audiência fisgada pelo sucesso de estúdios concorrentes (em especial, a Pixar). Colocar tal responsabilidade nas mãos de uma princesa de cabeleira avantajada é opção de risco quando os sucessos dos últimos anos priorizaram temáticas atuais. Na contramão de todas as suposições pessimistas, a Disney acertou em sua escolha.
“Enrolados” representa o primeiro passo da Disney no sentido de reunir seu público disperso e monopolizar um prestígio atualmente dividido entre concorrentes de peso. Neste início de década, a história de uma princesa clássica trabalhada sob moldes modernos e com o auxílio do cinema 3D parece dotada de simbologia suficiente para representar a atual empreitada da empresa.
O filme segue o argumento clássico do conto de fadas dos Irmãos Grimm, mas modifica algumas situações e insere novos traços para tornar o roteiro mais ágil e contemporâneo. Rapunzel foi levada para uma torre secreta por uma senhora que ambicionava a juventude eterna, o que só seria conseguido com o auxílio do cabelo da princesa. Com a ajuda de um ladrão fugitivo e aproveitando a ausência da madrasta, a garota arrasta sua cabeleira de 22 metros para fora da torre e vai conhecer o reino que imaginou.
Ao contrário do original alemão, e para atrair a parcela masculina do público, o conto da Disney preferiu fugir da figura do príncipe convencional, criando em seu lugar um anti-herói com aparência de mocinho. Flynn Ryder divide com Rapunzel o protagonismo da história e sua importância não se resume ao papel de par romântico. É ele o narrador da trama, responsável pela apresentação da história e dos personagens nos primeiros minutos do filme. Sua narração malandra foge do convencionalismo de animações clássicas como “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Cinderela” e “A Bela e a Fera”.
Algumas sequências também parecem feitas para a diversão do público masculino. Se Rapunzel aproveita seu tempo livre tricotando roupas, cozinhando bolinhos e pintando estrelas, atividades presentes no imaginário criado para princesas, também é capaz de tocar guitarra e desafiar beberrões em um bar de quinta categoria com a mesma desenvoltura.
Como forma de não abandonar todas as características responsáveis pelo êxito familiar da empresa, a trama de “Enrolados” também é permeada de boas lições. O alvo das recomendações morais, agora, é a parcela adolescente da audiência e, por consequência, seus próprios pais. O maior conflito da primeira metade do filme diz respeito ao sonho de Rapunzel de sair da torre e os conselhos da madrasta sobre o perigo do mundo externo. Assumindo o papel de voz da sabedoria presente nas histórias de moral, Ryder explica que os filhos precisam romper o cerco de superproteção materna em algum momento. Aos dezoito anos, chegou a hora da princesa.
A dúvida sobre a eficácia da animação digital para contar a história clássica de uma princesa tem fim ainda nos primeiros minutos de exibição. “Enrolados” parece o resultado de um trabalho minucioso de criação, em que todos os detalhes receberam tratamento cuidadoso e atenção redobrada. Os personagens surpreendem pelas texturas bem trabalhadas e expressões faciais que beiram a perfeição. O cabelo de Rapunzel demonstra ser resultado de uma dedicação exaustiva da equipe de criação, assim como o realismo dos ambientes externos e o nível de detalhamento das paisagens e planos mais abertos. As sequências de dança bávara no interior do reino e as lanternas voadoras, ao fim do filme, são momentos exitosos e merecem destaque entre os mais recentes lançamentos de animação digital.
Se o casal de protagonistas consegue obter nossa empatia imediata, os personagens secundários também desempenham papel importante na trama. A iguana de estimação da princesa (simplesmente fantástica), o cavalo real (espetacular) e a trupe de bêbados do povoado, além de resultados de um excelente trabalho artístico, são engraçados e responsáveis por várias tiradas de humor.
Um filme destinado a todo tipo de público, que deve agradar adultos e principalmente as crianças, uma história engraçada e ao mesmo tempo tocante. Excelente e recomendado, nota dez!

sábado, 18 de dezembro de 2010

E os melhores de 2010 são....

Com o fim de ano chegando e com a oportunidade de ter assistido a alguns filmes, aproveito pra postar aqui, na minha visão, a lista dos melhores de 2010:

1-A Origem (Inception)
Cristopher Nolan nos deixa mais uma obra prima, trabalhando com maestria em sua temática predileta: A mente humana e o subconsciente. Uma história complexa, um roteiro profundo, uma direção impecável. Atuações brilhantes, com Leonardo di Caprio inspiradíssimo, e efeitos especiais espetaculares. “A origem” é, na minha opinião, o melhor filme do ano.
-----------------------------------------------------------------------------
-----------------------------------------------------------------------------
2-A Rede Social (The Social Network)
David Fincher é um diretor genial (vide Seven, Clube da Luta e Zodíaco). Em seu mais novo projeto, Fincher expõe de maneira crítica a vida de Mark Zuckerberg, tratando-o como um “gênio do mal” não só pela forma como criou um dos maiores sites de relacionamento do mundo (Facebook), mas também como o conduziu. A Rede Social conta com atuações brilhantes, diálogos afiados e uma direção impecável de Fincher.
-----------------------------------------------------------------------------
-----------------------------------------------------------------------------
3-Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro (Idem)
José Padilha havia mostrado todo seu talento ao dirigir Tropa de Elite, através de seu segundo filme, pudemos perceber claramente porque está sendo cogitado para dirigir longas em Hollwoody. Através de uma direção certeira, Padilha “cutuca” a ferida de todas as classes de nossa sociedade, onde todo o sistema é revelado como “podre” e corruptível. O melhor filme brasileiro já produzido, uma pena não ter sido o indicado para representar o Brasil no Oscar.
-----------------------------------------------------------------------------
-----------------------------------------------------------------------------
4- A Ilha do Medo (Shutter Island)
Martin Scorsese nos mostra o lado obscuro da personalidade humana através de uma obra prima doentia, psicótica e cruel. Um filme que se utiliza do terror psicológico como forma de despertar uma emoção primária no telespectador: O medo. Ao construir um ambiente “pesado”, através de uma narrativa complexa, Scorsese mostra que é um gênio, um ícone no mundo Hollywodiano.
-----------------------------------------------------------------------------
-----------------------------------------------------------------------------
5- Toy Story 3 (Idem)
Impressionante o que a Pixar é capaz de proporcionar aos seus espectadores. A cada novo longa, esta empresa nos mostra que uma animação pode ser dirigida não somente às crianças, que por trás do “engraçadinho”, há mensagens fortes e intensas na qual devemos nos apoiar e assim refletir. Toy Story 3 é o melhor filme de animação já produzido: engraçado e ao mesmo tempo sério e cativante. É da pixar, portanto, sem mais.
-----------------------------------------------------------------------------
-----------------------------------------------------------------------------
6- Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 ( Harry Potter and the Deathly Hallows: Part I)
David Yates assumiu a direção dos filmes da franquia em “A ordem da Fênix” e não decepcionou. Fez um excelente trabalho em “Enigma do Príncipe” e um trabalho excepcional em “As Relíquias da Morte”. Uma direção tranqüila de Yates, com uma história de grande fidelidade ao livro, aliando momentos de ação e cunho dramático na medida certa. Preparou em grande estilo o terreno para o Gran Finale (parte 2).

PS: Há outros filmes que estão sendo vistos de forma muito positiva e incluídos em listas de melhores do ano, mas como não tive oportunidade de vê-los, fico com a lista acima mencionada. Entre os mais falados estão: Kick Ass-Quebrando Tudo, Scott Pilgrin contra o Mundo, O Cisne Negro, O Vencedor e o Discurso do Rei. Fiquem a vontade para comentar, sugerir ou ainda criticar, e fiquem a vontade também para elaborar suas listas dos melhores de 2010!! Obrigado!!

Tron - O Legado ( Tron - Legacy)


PS: Não tive a oportunidade de ver o filme de 1982: “Tron-Uma Odisséia Eletrônica”, porém, a fim de enriquecer minha crítica e comentário sobre “Tron-O Legado”, procurei ver trailers e ler diversos artigos e comentários sobre o primeiro filme.
Em “Tron-O Legado”, Sam Flynn (Garret Hedlund), especialista em tecnologia, filho de Kevin Flynn (Jeff Bridges), investiga o desaparecimento do pai e se vê preso no mesmo mundo povoado por programas ferozes e jogos fatais onde seu pai vive há 25 anos. Junto com sua fiel confidente Quorra (Olivia Wilde), pai e filho embarcam em uma jornada de vida e morte por um universo cibernético.
Filmes são fruto de um tempo, da época em que foram produzidos e lançados. Nada muito diferente, na verdade, do que qualquer outro produto cultural (álbuns, novelas, livros, histórias em quadrinhos, etc), que reflete anseios, dúvidas, atitudes, moda ou seja lá o que for que esteja em voga durante seu lançamento. Alguns sobrevivem ao tempo; outros se perdem na poeira da História.
Dito isso, “Tron-Uma Odisséia Eletrônica” envelheceu muito mal. Lançado em 1982, o filme marcou época ao fazer uso de efeitos especiais inovadores e que abriram caminho para o futuro da imagem digital. Antes de “Tron”, os filmes usavam trucagens visuais. Depois de seu lançamento, os efeitos digitais viraram coqueluche e regra. A trama da produção, entretanto, era boba; as atuações dignas de peça infantil e a direção de Steven Lisberger beirava o amadorismo. O resultado é um longa sem ritmo ou coerência e que coloca o visual acima de tudo, inclusive de qualquer lógica narrativa.
Nesse sentido, “Tron-O Legado” não se difere muito de seu antecessor e privilegia a plasticidade das imagens em detrimento do conteúdo, apesar de ser bem melhor dirigido e despertar um interesse maior pela trama, contada com mais empenho e lucidez. Claro que visualmente o filme deve dar um banho nos efeitos especiais apresentados pelo longa de 1982. O visual retro e quadrado que pude ver em alguns trailers do filme de 82 e que remete claramente a videogames como o Atari, ficou na década de 1980, e “Tron-O Legado” segue outro caminho, mais moderno e arrojado, ainda que o neon azul e vermelho prevaleçam e reforcem o maniqueísmo da luta entre o bem e o mal.
O clichê da história (homens versus máquinas) é uma mera desculpa para o desfile do que de melhor as imagens digitais podem nos oferecer. O filme é quase um remake do primeiro, na verdade. A maior diferença é que, se no primeiro, o vilão era um humano, e as máquinas apenas refletiam seus desejos; na continuação, o mal é representado pela máquina que se rebela contra o homem.
É aqui que reside um dos maiores problemas de “Tron-O Legado”, uma questão que o primeiro até enfrentou, mas com quase 30 anos a menos de referências cinematográficas. O embate entre homens e máquinas não é nenhuma novidade e a temática já foi usada e desgastada por uma leva de filmes, todos bem melhores: de “Blade Runner”, passando por “O Exterminador do Futuro” e chegando, claro, a “Matrix”, a referência mais óbvia aqui, sendo a dicotomia entre o mundo real e o virtual a base de todo o longa.
Assistindo à produção, fica claro que o tempo passa, o tempo voa, mas a gente continua sempre a ver as mesmas histórias. Isso até não seria um problema se o filme apresentasse novidades, o que não é o caso. A embalagem aqui pode ser mais neon e iluminada, mas falta a “Tron-O Legado” o vigor e a ação desenfreada de uma produção de James Cameron (“O Exterminador do Futuro”) ou a aura enigmática e filosófica de um longa dos irmãos Wachowski (“Matrix”).
Tron-O Legado foi filmado pelo diretor estreante Joseph Kosinski, e de uma coisa este merece elogio: a parte técnica é simplesmente espetacular, capaz de deixar qualquer espectador boquiaberto. O filme traz cenas de ação de qualidade, cheio daqueles clichês que todos adoram, como muito slow motion (tipicamente “Matrix”), profundidades de 3D bem trabalhadas e um quesito que pode se dizer ser o mais interessante de todos: a brutalidade da morte suavizada em forma de cubos. Outro ponto mais que positivo, sendo uma evolução que faz jus ao nome Tron, é a qualidade digital de Clu, personagem vilão que é uma cópia exata de Jeff Bridges nos anos oitenta. Seu realismo é incrível e talvez até confunda os mais desavisados. Os efeitos especiais e visuais, aliado à trilha sonora do Daft Punk compõe uma química perfeita, nos reservando um espetáculo de encher os olhos e digno de aplausos. Tron-O Legado é, literalmente, um colírio para os olhos (e ouvidos).
Um outro elogio que deve ser feito à Kosinski se refere à manutenção de uma série de elementos do primeiro filme, inclusive alguns atores (Jeff Bridges e Bruce Boxleitner reprisam seus papéis), e dar continuidade à história, mesmo que quase 30 anos depois, prestando homenagem a um filme que marcou uma geração e hoje estava praticamente esquecido. O clima futurista também é bem vindo, mas, como dito anteriormente, parte do mérito disso vai para a eficiente (e brilhante) trilha musical do Daft Punk.
No final das contas, “Tron-O Legado” é entretenimento bastante eficaz. Um desses blockbusters que faz uso de toda a tecnologia à mão para proporcionar uma experiência sensorial ágil e em alto e bom som, um espetáculo digno de ser acompanhado 1, 2, 3 vezes, porém, apesar de visualmente encantador, ao contrário do longa de 82, não deixará marca alguma na história do cinema. Em suma, uma temática batida, com uma enormidade de clichês, mas com efeitos sensacionais e muito bem utilizados. Vale sim conferir, principalmente pelo terceiro aspécto.
Nota 8

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Rede Social (The Social Network)


Em uma noite do outono de 2003, o universitário de Harvard e programador genial Mark Zuckerberg senta-se em seu computador e começa, inspirado, a trabalhar em uma nova idéia. O que tem início em seu dormitório se transforma em uma rede social global que vai revolucionar a comunicação mundial.
Filmes sobre gênios que acabam despontando em suas faculdades e criam grandes empreendimentos sempre os apresentam como pessoas deslocadas e que vivem escondidas pela própria genialidade. Este é o caso de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, que é o tema do filme “A Rede Social” do diretor David Fincher. Acertadamente, Fincher abre a sua narrativa com um diálogo espetacular entre Mark e a sua namorada Erica Albright. Nesta cena, o diretor e o roteirista do filme deixam claro como é a personalidade de Mark e como a maneira péssima que esta conversa termina acaba sendo o ponto de partida para a sua criação do Facebook e para a sua popularidade dentro da Universidade de Harvard.
Para os calouros que entram em universidades americanas o que eles mais querem é também entrar nas chamadas fraternidades, nos grupos secretos que outros estudantes famosos e competentes também fizeram parte. Mark queria ser um desses caras. No anexo em que ele morava com outros colegas, incluindo o seu melhor amigo Eduardo Saverin, todos queriam ser aceitos para fazerem parte das festas privativas e viverem de forma popular. Porém, o término do namoro entre Mark e Erica é o seu momento de fraqueza e a partir dali ele (com o auxílio de Saverin) cria, completamente bêbado, um site chamado FaceMash em que os estudantes de Harvard votam nas mulheres mais bonitas (e gostosas). Apenas durante uma madrugada em que ficou no ar, o site teve um total de 22 mil acessos e derrubou a rede de internet de uma das maiores Universidades dos Estados Unidos e do mundo.
Mark achou que, com isso, atrairia popularidade e seria reconhecido pela invenção que teve. Mas ao perceber que os estudantes não reagiram muito bem à sua criação, Mark passa a ser mal visto dentro dos corredores da universidade. É assim que ele aceita a idéia dos irmãos Winklevoss, que pretendiam realizar um site cujos estudantes de Harvard poderiam se registrar e criar perfis próprios. Mark viu um potencial muito maior para a idéia dos irmãos e fez com que ela não ficasse apenas no campus da universidade em que eles estudavam, mas fosse expandido para outras regiões. É aí que entra a importância do brasileiro Eduardo Saverin, responsável por injetar o primeiro capital que dava aluguel de servidores e estabilidade de conexão para os visitantes que começaram a se cadastrar no site.
O livro escrito por Ben Mezrich (na qual o filme se baseia), a partir do que foi relatado pelo próprio Eduardo Saverin, ilustra e entra na questão se Mark Zuckerberg havia roubado a idéia dos irmãos Winklevoss e questiona a originalidade do Facebook. Mark era um gênio e disso ninguém duvida, mas o próprio roteiro de Aaron Sorkin tenta se manter imparcial neste sentido, não o julgando como vilão, mas o apresentando como um jovem que se tornou bilionário a partir da criação de um site que vem crescendo ano após ano e expandindo as suas atividades para outros países. O roteiro de Aaron Sorkin, extremamente inteligente por sinal, constrói o filme entre o julgamento de Mark Zuckerberg em ações que são movidas por Eduardo Saverin e pelos irmãos Winklevoss, além de percorrer os momentos mais importantes e tensos da criação até o sucesso.
A tensão realmente começa quando Eduardo passa a procurar por anunciantes para o site com o objetivo de torná-lo também uma máquina de dinheiro e lucro. Mark, no entanto, entra com uma nova idéia ao marcar uma reunião com Sean Parker, o criador do Napster e também o responsável por ter mudado a indústria fonográfica para sempre. É bem verdade que o programa desenvolvido por ele durou pouco tempo e ele logo declarou falência, mas a relevância que o Napster teve se deu por ele ser o principal responsável pelo fechamento de algumas gravadoras e o agravamento da crise sentida por outras, já que os usuários não queriam mais comprar CDs porque encontra estas músicas em mesma qualidade por meio do Napster. Eduardo Saverin e Sean Parker não se dão bem e isso acaba sendo um dos fatores para que a amizade entre Mark e Eduardo fique estremecida e completamente abalada.
“A Rede Social” é um filme sobre a criação do Facebook, mas vai muito além disso. A história acaba sendo também sobre as relações cada vez mais vazias que começaram a ser criadas a partir da internet e das suas redes sociais. Em um determinado momento do filme, Sorkin apresenta a expressão “me adicione no facebook” como um bordão que havia se tornado sucesso entre os estudantes de Harvard e de outras Universidades. A própria namorada de Eduardo Saverin se comporta de uma maneira completamente psicótica quando ele muda o “status do seu relacionamento” para solteiro no Facebook. As pessoas passaram a dar mais importância a conhecer outras pessoas e a se conectarem a elas, não mais pelo convívio pessoal, mas sim em estarem ligadas na internet. Dentro do Facebook,(ou mesmo do Orkut), você pode ter 300, 400, 500 amigos. Mas quantos deles são realmente próximos a você? Quantos deles você realmente pode chamar de amigo?
Por esta razão é emocionante a cena em que Eduardo Saverin, já movendo uma ação contra Mark Zuckerberg quando o brasileiro vê as suas ações sendo diluídas de 33% para 0.03%, pergunta a Mark por que ele havia feito aquilo com o único amigo que ele tinha. Eles eram amigos, por mais que Eduardo não conseguisse chamar a sua atenção e que Mark estivesse concentrado nos planos de expansão de Sean Parker. E a mesma emoção sentida nesta cena pode também ser sentida em outro momento, quando uma das advogadas de defesa diz a Mark que ele não é um babaca como as pessoas comentam ou falam, mas que ele vive se esforçando para se tornar um e deixar esta impressão nos outros. É por isso que “A Rede Social” vai muito além do que apenas relatar a trajetória destes jovens que, com uma criação deste tamanho, conseguem se ver envoltas em muito dinheiro e se tornarem bilionárias de uma hora para a outra.
As atuações como um todo estão muito seguras, com interpretações de impacto, em especial a de Zuckerberg (Eisenberg), que taxado como nerd, tem a fama de não conseguir se relacionar com outras pessoas. Neste sentido, a atuação de Jesse Eisenberg é excepcional, porque ele mantém a sua personagem com um olhar sempre perdido e também preso em suas próprias limitações de não conseguir socializar com outras pessoas. Quando o seu relacionamento com Erica termina, a pessoa mais próxima que ele conseguiu se relacionar verdadeiramente, parece que a sua vida perdeu sentido e ele parte em busca de encontrar um novo significado e acaba achando isso na criação do Facebook.
É por isto que a cena que encerra a narrativa de “A Rede Social” é tão emblemática e impressionante, fechando um arco dramático que foi conduzido com a inteligência do roteiro de Aaron Sorkin e a agilidade e competência da direção de David Fincher. O longa não condena Mark. Pelo contrário: o filme faz com o seu espectador até sinta compaixão pela personagem pelo carisma que Jesse Eisenberg transmite.
Apesar de um pouco difícil, “A rede social” é um longa altamente recomendável, com roteiro e direção espetaculares, diálogos afiados e atuações brilhantes. Posso dizer que “A rede social” está, na minha visão, entre os 5 melhores filmes do ano.
Nota 10