terça-feira, 21 de setembro de 2010

REC 2 - Possuídos (REC 2)


Fui ao cinema ver “REC 2” com muita expectativa, até porque o primeiro filme foi uma surpresa pra lá de agradável, com uma história original, muito bem articulada e construída. Apesar de “REC” ser muito bem feito, a origem de todos os eventos era apenas intuída, e não explicada, e imaginei que iria ficar por isso mesmo, porém, para minha surpresa, fui deliciosamente enganado. “REC 2” se não é melhor que o primeiro, é tão bom quanto e o melhor: explica várias pontas abertas do primeiro filme.
“REC 2” acompanha a entrada de uma equipe da força policial no prédio cenário do filme anterior, alguns minutos após sua famosa última cena. Na tentativa de solucionar o mistério que envolve o prédio e deter a proliferação do vírus para as ruas de Barcelona, a polícia tenta, sob os comandos de um padre pouco ortodoxo, capturar amostras de sangue daquela que seria a primeira infectada do lugar. E então entendemos que a agressividade dos mortos-vivos não é resultado de experimentos falhos, mas sim da possessão demoníaca de uma das moradoras do local.
O filme tem alguns furos no roteiro e isso pode atrapalhar um pouco o andamento da trama. Por exemplo: É colocado que a possessão é transmitida via sangue ou outros fluídos, através de um vírus. Como poderíamos imaginar que uma pessoa poderia “transmitir o demônio” à outra via contato sanguíneo através de um vírus? Apesar de ser um pouco incoerente de se imaginar tal ponto de vista, é importante destacar que o desfecho da trama dá uma explicação plausível para o que acontece dentro da casa e o furo citado anteriormente não é algo que derruba ou atrapalha totalmente o filme.
Os mesmos Jaume Balagueró e Paco Plaza, diretores do anterior, trazem mais uma vez o formato de filmagem em primeira pessoa e dão uma boa explicação sobre como, na história, esse formato se sustenta. Mas a sensacional sacada é justamente a origem das criaturas. Sem estragar a surpresa, pode-se dizer que é algo totalmente original e que essa revelação não compromete em nada a integridade do roteiro da primeira parte. Pelo contrário, complementa-o.
A tensão chega a reinar absoluta, com atores que esbanjam naturalidade e convencem que estão realmente aterrorizados. Os efeitos especiais permanecem em nível ótimo e a equipe técnica fez um trabalho sem igual de edição para comportar várias câmeras filmando ao mesmo tempo (sim, agora teremos mais de uma câmera) e sempre na cronologia exata dos acontecimentos, tudo muito bem articulado e explicado. Alguns ângulos utilizados pelo cinegrafista, sobretudo nos momentos em que a câmera é lançada ao chão por algum zumbi raivoso, são memoráveis pela originalidade e por acentuar o clima de medo. Em uma das sequências, entre as melhores do filme, acompanhamos o ataque de um zumbi pelas sombras projetadas em uma porta. Ponto positivo para a equipe dos diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza. Além disso “REC 2” utilizou recursos, presentes também no primeiro filme, que acentuam a morbidez de algumas sequências: ausência de músicas, o silêncio e a captação de ruídos. Tais aspéctos são determinantes na propagação dos sustos e medos recorrentes.
Agora o grande mérito de “REC 2” é de ter conseguido dar continuidade ao argumento do primeiro filme, e o melhor: complementá-lo. É certo que “REC” é por natureza um filme de entretenimento, onde o grande objetivo é proporcionar ao espectador um leque de emoções fortes, capazes de levar a pessoa mais impressionável a abandonar a sala. No entanto, onde o primeiro se destacava, mais que o entretenimento visual gráfico, violento e extremamente “gore”, era na capacidade de envolvência do argumento. Neste segundo filme, esse setor específico e preponderante, é mais uma vez um triunfo. Balagueró e Plaza conseguem criar uma porção de novos personagens, que tal como no seu antecessor, possuem o dom divinal da ironia, sarcasmo, construindo um humor negro equilibrado com o medo psicológico e com a violência. Portanto, ao contrário de outros filmes do gênero, aqui nada é gratuito. A continuidade dada à história não repete a fórmula do original. “REC 2” transforma de forma inteligente as suspeitas que tínhamos do vírus do primeiro filme, em algo concreto. A ambiguidade sobre o que seria o vírus na primeira parte, oscilava entre o científico e o religioso, tal como muitas das dúvidas que o ser humano tem sobre variados temas ou acontecimentos da vida real. Jaume Balagueró e Paco Plaza metaforizam essa ambiguidade em “REC”, e proporcionam uma resposta igualmente ambígua em “REC 2” , mas ao mesmo tempo objetiva. Como? Misturando a ciência e a religião, transformando-a num elemento simbiótico. Do gênero: e se a ciência e a religião conseguirem ser um só? Eis mais um ponto positivo para Balagueró e Plaza.
“REC 2” não poupa nem as crianças dessa maldição e presenteia o espectador com um espetáculo de 85 minutos de horror, sangue, tripas, sustos, medo, tensão, correria e, o que é melhor, uma excelente história. Eu não esperava que seria tão bom quanto o original e sai do cinema satisfeito, pois trata-se de uma agradável surpresa. Aos fãs do gênero, altamente recomendável!
Nota: 9,5

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