sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - O Inimigo agora é outro


Lançado em 2007, “Tropa de Elite” se tornou um dos maiores ícones da cultura pop brasileira no século XXI. Vítima de uma polêmica sem precedentes envolvendo a pirataria no país, o longa conquistou uma legião de fãs, que repetiam nas ruas jargões que viram no cinema (ou, infelizmente, no computador), como “pede pra sair”, "nunca serão", “faca na caveira”, "o sr. é um fanfarrão" e muitos outros.
"Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção". É desta forma que inicia “Tropa de Elite 2”, fenômeno antes mesmo de estrear. Em parte pela popularidade do filme original, que eternizou personagens e bordões no inconsciente coletivo nacional, mas não apenas isto. O grande atrativo de “Tropa de Elite” era a denúncia ao “status quo”, à corrupção que permeia a polícia e faz com que ela aja de forma ineficiente e truculenta. Somado a isto, há a criação de um salvador, um ícone que surge para "limpar a cidade": (grande)Capitão Nascimento. Os meios brutais os quais usa nada mais são do que reflexo da sociedade atual, que os aceita por não mais crer em soluções pacíficas. É dentro desta realidade, e sabendo explorá-la, que o diretor José Padilha conduz a história de seu novo filme.
Padilha aprendeu muito desde o primeiro “Tropa de Elite”. Ousado ele é desde “Ônibus 174”, o corajoso documentário que dá um caráter sociológico ao sequestro ocorrido no Rio de Janeiro em 2000. Acusado de fascista, ele agora brinca transferindo a acusação ao personagem principal da série. Só que, mais do que rebater as críticas que recebeu, Padilha as amplia. Deixa o reduto carioca do BOPE para tratar de política, partindo do Estado do Rio de Janeiro para alcançar o país ( oooo maraviha, Padilha: VC É O CARA, hehe). É exatamente neste ponto que Tropa de Elite 2 atinge sua grandiosidade.
O filme começa situando o espectador em relação aos personagens sobreviventes. Nascimento (Wagner Moura, mais uma vez incorporando de forma brilhante o personagem) permaneceu no BOPE, mas logo o deixa para cumprir uma função na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Acreditando ser esta sua grande chance de "quebrar o sistema", como o próprio diz, embarca com unhas e dentes na difícil empreitada de derrotar o tráfico de drogas. Consegue. Só que a realidade brasileira, como bem dizia Tom Jobim, não é para iniciantes. Mesmo uma “raposa” experiente como ele não podia contar com as “mutações” do sistema para que tudo permanecesse como está. E é justamente a revelação destas “mutações”, em caráter muito mais amplo do que simplesmente a questão de segurança pública, que faz de “Tropa de Elite 2” algo muito maior do que um mero filme.
Padilha conseguiu tratar de assuntos complexos e delicadíssimos (acredito que até para sua própria segurança) de forma coesa e coerente. Não há como não reconhecer vários dos personagens e situações retratados a partir do que se vê na vida real. “Tropa de Elite 2” é, em vários momentos, um documentário rodado com atores, o que lhe dá uma importância ainda maior. É o cinema denúncia, expondo uma situação calamitosa a qual se prefere fechar os olhos por comodismo ou interesse.
A corrupção da polícia, assim como no primeiro filme, ainda é abordada, mas agora é vista como ferramenta de um jogo de poder muito mais complexo. O lançamento do filme em período eleitoral (outubro de 2010) é sintomático, uma vez que podemos ver que os políticos retratados na produção não são muito diferentes dos que foram eleitos para cargos públicos recentemente. Alguns dos personagens, inclusive, são praticamente cópias de candidatos reais, mas não nos cabe aqui dar nome aos bois.
Em meio a questões sobre direitos humanos, política eleitoral e o impacto dos atos de Nascimento junto à população, “Tropa de Elite 2” traz de volta o sarcasmo do primeiro filme. Desde provocações como chamar o esquerdista Fraga (Irandhir Santos, impecável) de "Che Guevara" até constatações diretas e secas, como "os chefes do tráfico em Bangu I não foram mortos porque tinham grana para perder", o filme é repleto de belas sacadas que já fizeram a alegria dos fãs do filme original. Se não tem a mesma quantidade de frases marcantes, trata de forma coerente e realista todos os personagens, dos mais importantes aos de menor destaque no filme original. Méritos para Bráulio Mantovani, “monstro” em matéria de roteiro no cinema nacional.
Mantendo os mesmos acertos do primeiro longa no que diz respeito à fotografia, edição e trilha sonora, “Tropa de Elite 2” possui ainda a qualidade de se provar complexo. O filme, e o problema da violência no Rio de Janeiro e outras grandes cidades no Brasil, não pode ser explicado em poucas linhas e, por isso, a opção de fazer uma continuação para mostrar outra vertente da questão é absolutamente memorável.
É claro que algumas sequências, em especial as de ação, irão lembrar “Tropa de Elite”, mas este segundo filme tenta ao máximo evitar a redundância. Busca-se inclusive modificar um pouco as sequências de tiroteio e invasão de favelas para não parecerem mais do mesmo.
“Tropa de Elite 2” não é um documentário sobre o sistema ou um filme panfletário de denúncias, mas coloca o dedo na ferida em algumas questões importantes e se isso for o suficiente para estimular a reflexão o filme já terá cumprido seu propósito. É claro que o filme pode ser visto apenas como um thriller político de ação, mas é muito mais do que puro entretenimento.
“Tropa de Elite 2” é um excelente filme. Só isto já é motivo mais do que suficiente para assisti-lo, mas desta vez José Padilha foi mais longe. Conseguiu, a partir de um mero filme, convidar o espectador a rediscutir o Brasil como sociedade, como proposta viável de país. Sem apresentar soluções, apenas retratando a realidade. Talvez não seja tão bom quanto o original, mas com certeza é mais importante, pelo que representa para o cinema brasileiro e, acima de tudo, para o país.
Uma exibição lotada, uma platéia inflamada que durante vários momentos aplaudiu à sessão calorosamente e um parágrafo resumitivo para retratar o que achei sobre “Tropa de Elite 2”:
Um filme corajoso, audacioso e muito, mais muuuuuuuito polêmico... como eu queria que todo o sistema assistisse a este filme.... sei que é uma obra de ficção e pouca coisa mudará na vida real no que diz respeito à “máfia” que envolve nossa sociedade e principalmente nossa política, porém, a ferida foi cutucada e isso já é algo importante e significativo!!
Junto de "A origem", "Tropa de Elite 2" é o melhor filme do ano!
Nota 10!!

4 comentários:

  1. Eu sempre acompanhei o perfil e o histórico das mazelas desta cidade, minha cidade. Pensei que não iria aprender nada de novo com esse fime. Ledo engano, sai surpresa pois ainda não tinha percebido grandeza dolado político dessas milícias, desse sistema.Hoje me sinto renovada!! Nunca sai de uma sala de projeção tão renovada e tão informada!
    ¨Tropa de Elite 2¨ O melhor filme dos últimos tempos

    Andréa Vasconcellos

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  2. Ehh..galera em pleno ano político esse foi o filme mas bem colocado, para que possamos analizar bem quem seram nossos governantes. Eu particularemte fiquei preocupada e sem muita esperança de um governo dignino, afinal uma laranja pobre passa seus fungos para as outras!!.. Muito bom filme, adorei..espero k todos, que iram assistir também gostem e tenha sua visão politia mas esclarecida.

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  3. Simplesmente otimo!!!
    Me apaixonei, bem filmado e muito bem exposto o tema abordado. Adorei as críticas e tudo. ( to um pouco sem inspiração pra escrever mais de boa).
    bjinhos Guu

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