
Gosto de fazer minhas críticas logo após ver aos filmes, até porque consigo ter a idéia mais clara em mente para debater as nuâncias que cada história nos oferece. Porém, neste “A origem”, preferi relaxar, descansar e principalmente pensar, pensar muito, deixando assim, a crítica para o dia seguinte, a fim de que eu pudesse raciocinar, refletir e ir “digerindo” aos poucos a complexidade da trama.
Não é a toa que Cristopher Nolan é hoje, na minha opinião, o melhor e mais polêmico diretor de Hollywood, melhor porque em sua lista de filmes, 7 no total, 3 estão entre os maiores de todos os tempos (segundo lista do IMDb), polêmico porque suas temáticas são sempre muito detalhistas, profundas e principalmente “malucas”, são visões e pontos de vista capazes de gerar aquele tipo de sentimento 8 ou 80 no espectador, ou seja, ame ou odeie, os filmes de Nolan não tem o “meio termo”.
“A origem”, novo longa do diretor, é um filme que segue a premissa acima, mas acredito que a maioria do público vai amá-lo. É um filme não recomendado àquelas pessoas que buscam somente entretenimento, até porque a história é complexa e envolve extrema atenção a todos os detalhes, a ponto de que uma pequena distração pode nos levar a ter problemas de interpretação e entendimento. Sendo assim, recomendo extrema atenção ao filme, em cada detalhe e reviravolta.
E por que “A origem” é um filme difícil? Justamente porque é nele que Nolan expõe sua temática predileta de forma intensa, profunda e complexa: A temática da mente humana. Em outros filmes do diretor (Amnésia, Insônia e O Cavaleiro das Trevas) essa temática já havia sido explorada, porém, de maneira superficial. Em “A origem”, Nolan “esmiúça”, detalha e aprofunda a temática da mente humana e do inconsciente, inserindo o espectador em um universo completamente desconhecido e alternativo, uma viagem ao profundo do pensamento humano, a uma realidade subjetiva do protagonista da trama, ao mundo dos sonhos, ou ainda mais, ao sonho dentro de um outro sonho, como se fosse um reflexo de espelhos.
A sinopse é mais ou menos a seguinte: Cobb (Di Caprio) é um ladrão incomum, pois rouba os sonhos de suas vítimas. Os sonhos não no sentido de anseios e desejos, mas desses que se têm quando as pessoas dormem, pensamentos que repousam no inconsciente. Por meio de um aparato tecnológico, ele é capaz de invadir as mentes e tomar posse das idéias mais íntimas das vítimas. O personagem é contratado por um grande empresário (interpretado por Ken Watanabe) para, no lugar de roubar, implantar uma idéia durante os sonhos de seu adversário, vivido pelo ator Cillian Murphy. Para essa empreitada, Cobb recruta uma equipe de alta competência no assunto, a fim de construir as realidades oníricas e fazer o que bem entender com a mente adormecida de sua vítima.
A partir daí galera, a palavra de ordem é manter-se atento ao que acontece na telona, não só para não perder os detalhes da história, mas também pela tremenda experiência visual proporcionada pelo filme. Experiência visual? Já que estamos falando dela, então aqui vai minha primeira crítica positiva ao novo filme de Nolan. Sabemos que no mundo dos sonhos tudo é possível, a realidade do inconsciente humano é capaz de criar situações ou ambientes inimagináveis, e Nolan explora muito bem esta premissa, através da criação de cenários surreais, impecáveis e vislumbrantes. O fantástico design de produção se encarrega de dar vida a ambientes que, mesmo trazendo uma aparência sólida de realidade, freqüentemente surpreendem ao revelar níveis de insuspeita complexidade, como a “escadaria infinita”, o limbo arquitetado por Cobb ou a luxuosa edificação que abre a narrativa. É uma experiência fascinante, onde nossos olhos “agradecem”.
Um dos aspectos mais fascinantes deste intrigante conceito de invasão de sonhos ou ainda viagem ao inconsciente humano reside na idéia, perfeitamente explicada pela neurologia, que a identifica como um mecanismo de proteção do sono, de que fatores externos à mente possam influenciar os eventos presentes no universo onírico. Assim, sons, cheiros e movimentos detectados pela pessoa em repouso podem ser traduzidos em detalhes dos sonhos exatamente como o toque de um despertador muitas vezes é absorvido e transformado num som “reconfigurado” pela mente adormecida, algo que Nolan emprega ativamente no filme, por exemplo, ao trazer uma chuva torrencial como conseqüência da vontade do “sonhador” de ir ao banheiro ou, num dos melhores momentos da trama, ao enfocar um hotel que deixa de respeitar as leis da gravidade em função da situação caótica na qual se encontram as pessoas em cujos sonhos aquele prédio se encontra. E eis que neste ínterim, é válido novamente destacar a grandiosidade dos efeitos visuais do filme.
Outro grande mérito de “A origem” está no fato de não simplificar sua narrativa para o espectador, fazendo com que este conecte os fatos e fique atento aos detalhes. O longa envolve níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos (algo que fica claro na seqüência que abre o filme), também descobrimos que o tempo tem duração diferente dependendo da profundidade na qual os personagens se encontram. É uma obra complexa, porque além de manter a ação num ritmo constante e frenético, enfoca ações paralelas que se passam em ambientes com regras próprias quanto à duração dos eventos que abrigam. Mesmo assim, Nolan e sua equipe de produção esmiuçaram cada situação e detalhe, fazendo com que apesar de complexa, a narrativa se tornasse clara à medida que os eventos sucediam-se. Aliado à magnitude e grandeza do roteiro e efeitos, é importante destacar também a trilha sonora do filme, que confere uma atmosfera sinistra e sombria à trama, desde suas cenas inicias.
Contando com um elenco admirável, Nolan extrai de seus atores os atributos necessários para que cada personagem desempenhe um papel preciso e importante na história: DiCaprio (brilhante), surge tenso e gradualmente mais angustiado e inseguro à medida em que a projeção avança, ao passo que Joseph Gordon-Levitt, como Arthur, exibe uma firmeza de ação que mantém o público sempre convencido de sua competência e de sua importância para os planos do parceiro. Marion Cotillard, por sua vez, encarna, uma femme fatale que poderia ter saído diretamente de um noir, enquanto Ellen Page, como uma jovem que ganha a oportunidade de realizar o sonho de qualquer arquiteto (literalmente, neste caso), evita se tornar apenas a personagem “novata” que, como tal, é usada exclusivamente como recurso expositivo para esclarecer conceitos para o espectador; em vez disso, ela se torna peça importante ao fazer jus ao nome e auxiliar os demais em suas trajetórias dentro dos sonhos.
Outro fato curioso a se ressaltar é que Nolan faz inúmeras referências que precisam ser pensadas cuidadosamente. Um exemplo é o nome da personagem de Ellen Page, Ariadne, que é a responsável pela arquitetura dos sonhos. Na mitologia grega, Ariadne ajuda Perseu a vencer o Minotauro, auxiliando-o a se localizar em um labirinto. Ou seja, há uma agregação entre o mundo real, o mundo dos sonhos e o mundo das fábulas, tornando o universo do filme ainda mais complexo e intrigante.
Respeitando o espectador ao não insistir em interromper a narrativa periodicamente para mastigar os acontecimentos, Christopher Nolan mantém esta confiança até o instante final da projeção, evitando um desfecho auto-explicativo que simplifique e resolva tudo para o público que, assim, sairá do cinema discutindo ativamente o significado do que acabou de testemunhar (incluindo, claro, a cena final). Isto não quer dizer, porém, que “A Origem” não se resolva; a diferença é que, graças à complexidade de sua narrativa, o filme permite múltiplas conclusões igualmente satisfatórias.
A Origem junta-se ao seleto grupo dos filmes que exploraram com primor a mente e/ou universos paralelos e realidades alternativas, como “Matrix” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. É um filme cheio de conceitos e passível de inúmeras leituras. É bem verdade que muitas dúvidas foram plantadas na minha cabeça depois de assistir ao filme, mas não tem problema, irei assistí-lo novamente para sanar estas questões (eis uma desculpa esfarrapada para ver mais uma vez esta obra-prima, este filme grandioso em todos os sentidos). O melhor filme do ano, um dos melhores que assisti em minha vida, um cult. “A origem” já entrou para a história como um dos maiores filmes de todos os tempos!
Nota mil? Como essa notação não existe, então dou dez! Brilhante, simplesmente: sensacional!

Galera, assisti "A origem" pela segunda vez e o fiz no intuito de captar certos detalhes que possam ter ficado pra trás, até porque trata-se de um filme que exige muita atenção a tudo e nem sempre conseguimos extrair todas as nuâncias que o filme nos oferece. No todo, consegui captar o que Nolan quis mostrar da primeira vez que vi o filme, mas alguns detalhamentos haviam me intrigado e fica claro que algumas sacadas são adquiridas somente após ter se assistido o filme mais de uma vez. Após ter assistido à uma segunda vez, posso dizer sem medo de errar que "A origem" não trata-se de simplesmente um filme, e sim uma obra-prima e grandiosa em todos os sentidos! Falo sem titubear: " A origem" é o melhor (e maior) filme que vi na minha vida!!
ResponderExcluirOii Gustavo segui sua recomendação e assisiti o filme.Nem sei que palavras usar é complexamente extraordinário este filme, a forma como é abordado o tema as justificativas de como entrar nos sonhos. Em alguns momentos pude observar grande semelhança com o real. Amei o filme o melhor e mais convincente. Já tinha vontade de fazer psicologia e agora mais ainda.
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