quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A epidemia (The crazies)


Zumbis são sempre divertidos. Essa é uma premissa infalível para qualquer gênero de cinema ou época de produção. Seja enquanto rasgam um pescoço a dentadas, nos filmes de horror, ou quando aparecem com um naco de braço pendurado entre os dentes, nas comédias escrachadas; os mortos-vivos ganharam variações técnicas, físicas e intelectuais e tornaram-se garantia de um bom e fiel público.
Partindo de George A. Romero, maior expoente do gênero, os zumbis ganharam popularidade e caíram no gosto comum. Seu “A Noite dos Mortos-Vivos”, de 1961, entrou para a seleta lista de filmes trash cultuados pelo público, e suas características ainda influenciam produções recentes. Prova disso é “A Epidemia”, refilmagem do clássico “O Exército do Extermínio” (1976), quarto filme de Romero. Com roteiro semelhante ao original e exibindo um caráter técnico um tanto antiquado, essa nova versão é fiel ao seu antecessor e, justamente por isso, igualmente divertida
Em “A epidemia”, observamos a tentativa de fuga de quatro moradores de uma cidade do interior dos Estados Unidos. O xerife do local (Timothy Olyphant), sua esposa (Radha Mitchell), um policial (Joe Anderson) e uma adolescente (Danielle Panabaker) tentam escapar de um vírus espalhado pelo sistema de abastecimento de água da cidade. Ao mesmo tempo, precisam fugir dos seus vizinhos, transmutados em zumbis sádicos após a ingestão da água, e de um exército policial enviado pelo Governo para deter a proliferação do vírus para além dos limites da cidade.
Particularmente sou fã de filmes que envolvem zumbis e por isso fui assistir a “A epidemia”, esperando um filme repleto de clichês e situações comuns em filmes que envolvem mortos-vivos, pois bem, o filme é sim repleto de clichês e peca pela falta de inovação, porém, me surpreendeu pela forma em que a abordagem foi discutida e principalmente pela maneira em que a história se decorreu, culminando com um desfecho amplamente satisfatório. “A epidemia” ganha pontos pelas sequências eletrizantes e sustos bem distribuídos e posicionados na trama.
O filme já começa em grande estilo ao retratar em sua primeira cena a ação de um “homem” (pseudo-zumbi) invadindo um jogo de beisebol com uma espingarda, ameaçando as pessoas que ali estavam....não falo mais nada sobre a cena pra não estragar a surpresa que sucede-se. Eu citei esse trecho do longa para mostrar que já de cara, no início da projeção, o diretor Breck Eisner explora a temática “vírus-zumbis” de forma inesperada, através de uma situação que gera tensão e ansiedade no público, e isso continua a acontecer ao longo do filme, com momentos perturbadores e impactantes, através de um jogo de câmeras que em certos momentos apresenta-se de forma desfocada, proporcionando maior realidade à trama, com momentos sufocantes e bastante tensos.
O roteiro é enxuto, sem espaço para ramificações e narrativas paralelas. Vez por outra algum novo personagem ainda não infectado acompanha o grupo do xerife, mas sua participação é sempre limitada a poucos minutos de duração. E se a trama gira em torno de uma história simples e exaustivamente utilizada por outras produções, o que resta ao diretor Breck Eisner é apostar em cenas bem elaboradas de tortura e litros de sangue que escorrem como água, e é neste ínterim que “A epidemia” se destaca, através da criatividade e realismo do jogo e focagem de câmeras em praticamente todas as cenas do filme, principalmente àquelas mais tensas que envolvem fugas, mortes e ataques. É neste momento que Eisner e sua equipe de produção acertam em cheio, caracterizando um projeto que deve agradar aos fãs do cinema de horror.
As opções de enquadramento e ângulos de câmera remetem ao filme original de Romero, com suas sequências tremidas e imagens explícitas dos momentos de morte. Eisner soube conciliar o tradicionalismo técnico que já foi “testado” por Romero, com a atualidade do estilo que consagrou filmes como os da franquia “Jogos Mortais” e “O Albergue”. Por utilizar o que há de melhor nas duas épocas, o hibridismo técnico de Eisner funciona e garante dinamismo durante toda a projeção.
Destaco também a trilha sonora do filme, com a representativa música folk de Johnny Cash em seus minutos iniciais, e os acordes inquietantes elaborados para as sequências de tensão, dão o tom certo para a pacata cidade “caipira” vítima da barbárie de seus próprios moradores. A música também “embala” as fugas e o desespero dos personagens, carentes de uma boa interpretação por parte de alguns atores.
O protagonista Timothy Olyphant (David Dutton) não consegue escapar do amadorismo que permeia algumas atuações do cinema de horror. Embora seu personagem, o xerife da cidade, desperte simpatia imediata no público, sua interpretação não consegue atingir o equilíbrio exigido pela narrativa. Então, o que vemos é um excesso de expressões exageradas e caras retorcidas, que destoam até mesmo do clima naturalmente descomedido da produção, mesmo assim a atuação de Olyphant não chega a comprometer o longa.
O destaque vai para o trabalho seguro de Radha Mitchell (Judy Dutton) e Joe Anderson (Russel Clank). Os dois mostraram versatilidade para assumir papéis importantes em gêneros opostos. Ela já havia conseguido oferecer ao público atuações convincentes na comédia dramática “Melinda e Melinda” e no horror “Terror em Silent Hill”. Anderson, menos conhecido do grande público, participou do recente “Amélia” (filme que não assisti, mas na qual li comentários excelentes sobre a atuação do ator), e agora comprova seu talento em um gênero diferente.
“A epidemia” é uma grande surpresa do gênero, e apesar de mostrar uma temática já batida, oferece meios de intrigar o público através da sucessão de fatos e pela forma como são caracterizados e discutidos. Como um bom filme de zumbis, seu mérito está na caracterização dos mortos-vivos, nas sequências de fuga e nos inúmeros sustos bem espalhados por toda a narrativa, um filme tenso, que assusta, com cenas e mortes criativas, momentos de perversão e violência, situações de desespero e momentos aflitivos.
Um filme que certamente merece ser apreciado pelos fãs do gênero e que compõe uma grata e satisfatória surpresa! Altamente recomendado. Nota 9!

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