sábado, 20 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte : Parte 1 ( Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1)


“Harry Potter e as Relíquias da Morte” é um excelente filme de guerra. Isso mesmo. Filme de guerra. Inúmeras serão as críticas e artigos que avisarão que este é o longa mais sombrio da série. Os jornalistas não estão enganados, porém não podiam ser mais óbvios. O adjetivo “sombrio” é usado para descrever a série desde “O Prisioneiro de Azkaban”. À medida que Harry foi crescendo, os perigos e as perdas que enfrentou também foram se tornando maiores. Voldemort, o vilão eterno, ganhou força e, nesse sétimo capítulo, se tornou um mal mais do que ameaçador.
Claro, os filmes da saga foram se tornando cada vez mais sombrios. Nada, entretanto, se compara a esse. Nessa aventura, Harry, Ron e Hermione se tornam heróis plenos, responsáveis não apenas por salvar a escola de magia e bruxaria de Hogwarts, mas por salvar o mundo.
O grande mérito, não apenas de J.K. Rowling, que construiu a história até esse ponto, mas também de todos os cineastas responsáveis por levar os livros à tela, é fazer com que os espectadores acompanhem os sete anos da vida desses pequenos bruxos. Vimos Harry sofrer vivendo com os tios, descobrir a magia dentro de si, fazer amigos, aprender feitiços, se apaixonar, perder entes queridos… Foram sete episódios com muita história que prepararam leitores e audiência para o grande final. A apresentação dos personagens e o desenrolar de suas vidas é essencial para emocionar nessa primeira parte do encerramento da série.
Em seu último ano em Hogwarts, Harry decide não voltar à escola, mas partir para encontrar as sete horcruxes, pedaços de alma de Voldemort. É sua função encontrar todos os objetos que ainda faltam (quatro) e destruí-los. Só assim o lorde das trevas será derrotado. Claro que Harry não vai sozinho. Ron e Hermione são parte fundamental da aventura (e de sua vida). O cenário para a jornada do trio não poderia ser pior. Nenhum dos três tem idéia de por onde começar e, enquanto isso, família e amigos correm riscos.
As primeiras cenas desse longa metragem mostram Hermione apagando a memória dos pais. Para garantir que eles sobreviverão à guerra, a feiticeira apaga seu rosto em cada uma das fotos de sua casa. Emma Watson faz a cena brilhantemente. Se antes a atriz abusava das caretas, nesse filme ela está fantástica. Sua atuação é sutil e, nos pequenos gestos no decorrer do filme, ela demonstra o pesar de quem abandonou a família e não sabe ao certo se terá um futuro com Ron. A cena de “Mione” apagando a memória dos pais já é capaz de emocionar, preparando terreno para muitas outras cenas que também geram este sentimento.
O romance entre Rony e Hermione, aliás, é algo que finalmente transparece. Nos filmes anteriores, Harry, por ser o herói da saga, sempre ganhava a atenção de Hermione. Aqui é visível o interesse dela em Ron, assim como o ciúme dele por Harry, um mérito de Rupert Grint. Grint, aliás, é, na minha opinião, o grande destaque do filme. Um personagem que, de forma convincente, é por um lado o grande trunfo de Harry em sua busca pelas horcruxes, mas por outro um íntimo “inimigo” vamos dizer assim, quando se remete ao triângulo que o envolve com o mesmo Harry e Hermione.
Todos os três astros de “Harry Potter e as Relíquias da Morte” amadureceram. É impressionante vê-los carregando toda essa dor ao longo do filme. Uma dor que, com certeza, foi acumulada após cada uma das perdas narradas no decorrer da aventura. A grande atuação dos três, entretanto, ganha ainda mais peso com o elenco de apoio. Além dos já conhecidos personagens que voltam para proporcionar alívio cômico e dar ainda mais vida à realidade mágica, conhecemos outras figuras, como Mundungus Fletcher (excelente). Se o mundo mágico tivesse jogo do bicho, Mundungus seria bicheiro. As correntes de ouro, a careca mal cuidada, a vaidade cafona. O personagem transparece a charlatanice até no jeito de falar.
Xenófilo Lovegood, pai de Luna, é outro achado. Tão perdido quanto a filha, o personagem, interpretado muito bem por Rhys Ifans, mistura a comédia e o drama em uma única cena. É irresistível assistir à construção da cena e do personagem. Há tantos momentos fantásticos de atuação que é difícil comentar cada um deles. Jason Isaacs como Lúcio Malfoy, James e Oliver Phelps como os irmãos gêmeos de Ron e Julie Walters como Molly Weasley são alguns dos nomes que com certeza arrancarão soluços. Se não nessa primeira parte de “Relíquias da Morte”, com certeza na segunda.
Os dramas e interações entre os personagens são tão bem construídos que não dá para esquecer por um minuto o que aqueles momentos significam. Há tensão ali. A tensão de uma guerra iminente. As cenas de ação fazem jus à atmosfera construída. O texto, convenhamos, não era lá dos mais ricos nesse aspécto. No livro, Harry, Ron e Hermione ficam mais tempo acampados e decidindo o que fazer do que com a mão na massa de fato. A falta de ação na história fez com que os fãs ganhassem ainda mais com a divisão da trama em dois filmes. Essa é, com toda a certeza, a mais fiel das adaptações. Com mais tempo, roteirista e diretor puderam trabalhar em cada um dos detalhes da trama.
“As Relíquias da Morte” foi feito também para emocionar. Algumas cenas já são marcantes e entrarão para a história do cinema. Aquela citada anteriormente envolvendo Hermione e seus pais tem um tom de melancolia que chega a “asfixiar”, outra cena tocante é aquela em que Harry está se despedindo de sua antiga moradia observando o sótão onde viveu durante anos e parece que neste instante pensava: Eu era feliz e não sabia...isso baseado no que ele iria enfrentar de ali em diante, é até incoerente pensar em tal situação, mas a expressão de Harry demonstra que este personagem preferiria passar tudo o que passou de sofrimento até ali, do que enfrentar o que viria pela frente, um momento marcante da trama e também cativante. A cena da morte de Dobby não tem como não se emocionar, dava pra se escutar os murmurinhos do público. São situações que preparam terreno para muita emoção que ainda virá e um grande finale que promete mexer com a sensibilidade de todo público.
O diretor David Yates fez um trabalho fantástico. Ele foi responsável pelo amadurecimento não apenas dos atores, mas também da trama. Compare o primeiro filme da série, dirigido por Cris Columbus, e esse último. São completamente diferentes. Uma obra que vai da ingenuidade ao pesar. Pesar combina mais com a história triste de Harry Potter. Desde que assumiu a saga, Yates tem conduzido o drama com qualidade. A cada filme o diretor colocava Harry Potter um passo a frente para alcançar os grandes épicos.
A prova do desafio enfrentado por Yates foi dividir a última parte da saga em dois. O diretor conseguiu incluir, no ponto de corte, drama e ação. O final dessa primeira parte não é nada brusco. Faz sentido e nos deixa com vontade de mais.
Não tenho dúvidas de que “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, partes 1 e 2, estarão entre os filmes mais marcantes da história do cinema, seja pela contribuição de Harry Potter na formação da cultura pop, pela qualidade dramática do longa metragem ou pelas excitantes cenas de ação. Assistimos ao desenrolar dessa guerra, que ainda não terminou e que, com certeza, renderá momentos ainda mais marcantes em sua segunda parte. Um filme tenso, sombrio, com uma temática “fria e pesada” destacada pela fotografia e obscuridade das cenas, um grande elenco (em número e qualidade) e uma direção primorosa de Yates garantem a Harry Potter – As Relíquas da Morte, primeira parte, o melhor filme da franquia, nos deixando com um gostinho de “quero mais” e a seguinte sensação: preparem-se, o final (segunda parte) será épico, emocionante e cativante! E pra concluir tudo isso: Uma sessão lotada, que termina com aplausos calorosos, resume o que o público achou deste “início do fim”!
Filmaço, sem dúvidas, nota 10

sábado, 13 de novembro de 2010

RED - Aposentados e Perigosos (RED)


Diversão à toda a prova, da primeira à última cena. Precisa mais? Se não precisar, a dica é “RED - Aposentados e Perigosos”, deliciosa comédia policial dirigida pelo alemão Robert Schwentke, o mesmo de “Plano de Vôo” e “Te amarei para sempre”. Divertido e saboroso, “RED” é um filme que merece ser visto e certamente irá agradar a todos.
A trama fala de um grupo de agentes aposentados da CIA que, sem motivo aparente, começa a ser mortalmente perseguido. E pior: quem está por trás deste processo de eliminação é a própria CIA. Queima de arquivo? Vingança? Alguma inexplicável teoria da conspiração? Quem sai em busca da explicação é o agente aposentado Frank Moses (Bruce Willis, em grande forma), que carrega a tiracolo um punhado de velhos colegas de espionagem e o seu mais recente amor, Sarah (Mary-Louise Parker), que nada tem a ver com a situação.
“RED” é um jogo de caça que faz um mix de comédia e ação para entreter. O filme brinca com a condição dos aposentados que ainda buscam uma solução para a transição da vida perigosa para a calmaria do lar sendo desajeitados no amor e na vida social, aliado a isso, temos o termo “perigosos” do título fazendo jus à cada personagem, com alguns requintes de crueldade e principalmente ironia próprios de agentes que trabalham nesta instituição (CIA). O roteiro, apesar de irregular, é ótimo e temos uma trama focando mais no humor durante a primeira parte, deixando a resolução do caso para o final, embora o desfecho não seja tão satisfatório quanto o resto do filme.
Agora o grande barato e diferencial do longa está mesmo no seu estrelado elenco. É um prazer para o público ver em cena nomes como Bruce Willis, Morgan Freeman, John Malkovich, a dama Helen Mirren (empunhando uma metralhadora, momento único em Hollywood, hehe) e Brian Cox, todos extremamente confortáveis em seus papéis e aparentando estarem se divertindo enquanto atuam juntos. Ainda temos a pequena participação de Richard Dreyfuss (que pecado, poderia ter sido explorado bem mais, talentoso). As estrelas ainda contam com a ajuda da hilária e adorável Mary-Louise Parker, conhecida por seu brilhante trabalho no seriado Weeds, além do sólido Karl Urban, o Bones de Star Trek. A muito tempo não presenciei uma atuação tão marcante de um elenco como um todo, é a famosa “química” perfeita, um elenco brilhante que faz jus à sua fama.
O resultado da trama é um agradável e nostálgico retorno à era dos “velhos espiões”, com ótimos e afiados diálogos, muito bom humor, produção das mais caprichadas e efeitos especiais de primeira linha. Tudo isso aliado ao elenco espetacular e sua ação brilhante, garante um filme pra lá de empolgante, com a sensação de “quero mais”, ou seja, de “vou ver novamente”.
Além do elenco, o grande ponto positivo de “RED” está em seu sarcasmo inteligente com o qual comanda a ação, com direito a irônicas referências à era da Guerra Fria. O título, por exemplo, num primeiro momento remete ao Comunismo (Red, vermelho, termo que na época designava os socialistas), porém uma mais que bem-vinda participação do veterano Ernest Borgnine esclarece que na verdade trata-se da sigla para Retired Extremely Dangerous, ou, Aposentado Extremamente Perigoso. Ou seja, o diretor Robert Schwentke “brinca” com a temática da Guerra Fria, proporcionando uma diferente visão do contexto deste evento simplesmente através do título da trama. Robert Schwentke, assim como seu elenco estelar, se mostra a vontade e através de sua direção “desleixada” e despreocupada, garante um resultado altamente satisfatório.
Vale salientar que “RED” é baseado na “graphic novel” de Warren Ellis e Cully Hamner, o filme é fiel à estética HQ, com cortes ágeis, enquadramentos elaborados e situações de ação no limite do impossível (eu não li o HQ, mas antes de expor minha crítica, procurei saber sobre sua produção e pelo que li sobre ele, o filme foi fielmente adaptado à história). Outro ponto positivo para Schwentke.
“RED” é um filme que não deve ser levado a sério, aquele filme feito para divertir, aquele filme produzido para todo tipo de público e que garante plena satisfação ao seu final. Um elenco estelar em nomes e em atuação, efeitos especiais espetaculares, e uma palavra pra definir e resumir o filme: correto!
Imperdível: nota 9,5

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Jogos Mortais - O Final (Saw 3D)


Em 2004, o serial killer Jigsaw (Tobin Bell) surgiu nos cinemas criando armadilhas mortais para pessoas que “mereciam” estar nelas. A idéia era testar a vontade de viver das vítimas por meio de escapes mirabolantes. O que mais encantava em Jigsaw era a inteligência de seus jogos e o fato de que, mesmo sendo um assassino, ele era acessível ao público e, de certa forma, simpático (hoje temos algo parecido em “Dexter”, apesar das diferenças). Nos quatro primeiros exemplares, foi possível presenciar diversos tipos de abordagem que os roteiristas ofereciam ao público. O inesquecível segundo filme, uma espécie de reality show forjado, talvez seja o melhor da série justamente por dar a sensação de que Jigsaw e seus jogos estão à frente até do próprio espectador.
Até o quarto filme, foi possível ver algo substancial na franquia. As armadilhas de Jigsaw realmente transformavam quem conseguia se livrar delas. É tanto que Amanda (Shawnee Smith) foi uma fiel seguidora, porém seu descontrole fugiu dos princípios de seu mestre: as armadilhas que ela criava eram praticamente impossíveis de escapar. Então, até por um princípio lógico do argumento da série, ela não seria a pessoa mais adequada para substituir Jigsaw após sua morte. Então apareceu Hoffman, um policial violento que entra no comando dos jogos mortais. A falta de carisma o transformou em um assassino sem muito atrativos. O que podemos ver neste sétimo filme é que ele, assim como Amanda, não é uma pessoa adequada para orgulhar Jigsaw, já que ele é apenas mais um assassino que não vê problemas em matar.
Hoffman monta os jogos baseado nos princípios de Jigsaw, mas ainda assim mata aleatoriamente. Talvez isso tenha prejudicado essa tão desgastada franquia que, em “Jogos Mortais 7”, prova que não tem mais para onde ir (apesar de que bilheteria alta sempre faz surgir mais um novo filme). Em Jogos Mortais 7, Hoffman se vê ameaçado por Jill (Betsy Russell), que o denuncia para a polícia. Em paralelo, ele monta um jogo sequencial, assim como utilizado anteriormente, para Bobby Dagen (Sean Patrick Flanery), que atingiu fama e fortuna após lançar um livro mentiroso sobre ter sobrevivido aos jogos de Jigsaw. É possível destacar que mesmo tendo uma franquia já desgastada, podemos notar que certos aspectos ainda tornam a franquia atrativa, as armadilhas são as mais violentas e inteligentes da série, a sacada de colocar no jogo um falsário e mentiroso que quis ganhar a vida em nome de Jigsaw também foi eficaz, e o final do filme nos garante uma surpresa, um personagem “esquecido” nos longas anteriores e que volta de maneira inesperada, proporcionando um final com gostinho de satisfação. Um outro destaque da trama é a adaptação para o formato 3D, onde obviamente temos sangue e pedaços de corpos jorrando na cara do espectador, e, apesar de pouco utilizado, o resultado de sua utilização foi bastante eficaz. Aqui é interessante ressaltar que vemos um bom trabalho na criação das perspectivas dos cenários e dos efeitos visuais de determinadas cenas, ainda que a tecnologia não tenha sido muito explorada no longa.
É notável também que o diretor Kevin Greutert está mais familiarizado com o cargo, apesar de ainda não ter momentos muito inspirados e que possa dar um novo fôlego à franquia. As atuações, como sempre, são expressivas apenas por exigir dos atores um pouco de pânico quando estes forem vítimas de uma armadilha. Tobin Bell (Jigsaw) faz uma ponta até interessante, mas não causa, assim como nos últimos filmes, aquela sensação de nostalgia e competência que demonstrou nos primeiros filmes e neste aspecto acho que o filme falhou, pois seu principal protagonista teve uma atuação rasa e pouco significativa.
Ao final deste final, que talvez não seja o final mesmo, o que nos resta é lamentar que não haja mais fôlego para a franquia. O público “vouyer” que gosta de ver armadilhas bizarras e muitos miolos na tela é o que impulsiona a boa bilheteria que, de qualquer forma, a série acaba arrecadando. Entretanto as grandes surpresas e reviravoltas mirabolantes já não existem mais. Resta apenas aos fãs de Jigsaw a melancolia de que um dia já foi muito bom assistir “Jogos Mortais”. Hoje a franquia busca fôlego somente na bilheteria do longa, pois aquele “boom” ou surpresa inicial já não existem.
Em suma, Jogos Mortais 7 pode ser considerado um bom filme se visto isoladamente, pois ainda assim nos oferece alguma surpresa ao longo da projeção, porém, se visto na visão da franquia como um todo e consequentemente uma continuação, podemos considerá-lo como inferior aos 3 primeiros. É até superior ao 4, 5 e 6, mas não mais impressiona pelas subtramas e seu desfecho, impressionando-nos somente pela criatividade no quesito armadilhas. Mesmo assim, vale uma conferida. Eu gostei, pra quem é fã da franquia, viu os filmes anteriores e tem estômago forte, é recomendável sim.
Nota 8

sábado, 30 de outubro de 2010

Piranha 3D (Idem)


No cinema existe uma grande diferença quando um diretor acredita fielmente que está filmando uma obra-prima e o resultado acaba sendo um filme trash ou quando o mesmo cria uma obra sem pretensão e tentando realmente ser trash. O segundo exemplo é o que acontece com o divertido Piranha 3D, remake do filme dos anos 70, que agora ganha uma nova versão tridimensional nas mãos do sanguinário diretor francês Alexandra Aja (Viagem Maldita, Espelho do Medo).
Em Piranha 3D temos como pano de fundo para o ataque das piranhas uma combinação perfeita que envolve sol, música, cerveja e mulheres de biquíni, aliado à estes aspectos, um feriado à margem de um lago. Até aí tudo bem, tudo perfeito, porém, um terremoto abaixo da superfície liberta um cardume de piranhas famintas, e quando o perigo vem por debaixo d'água não há como se prevenir. Agora, a policial Julie Forester (Elisabeth Shue) terá que fazer de tudo para interditar o lago e impedir que toda a galera se transforme em comida de peixe.
Desde a cena inicial após a participação especial do ator Richard Dreyfuss com o primeiro ataque (“mal feito”) das piranhas e o conseguinte surgimento do logo do filme que parece ter sido produzido na mesma época do original de tão tosco, já nos levam a pensar que tudo isso é realizado a fim de deixar claro que estamos à frente de um novo clássico trash.
A história se divide em duas situações, por um lado temos o filho da xerife local, Jake (Cody Kennedy) que deixa seus irmãos menores sozinhos, para poder auxiliar um diretor (Jerry O’ Connell) de filme pornô e suas modelos interpretadas pelas sensuais (impossível classificá-las de outra maneira) Kelly Brook e a atriz pornô Riley Steele, além da desnecessária personagem Kelly (Jessica Szohr), o amor adolescente de Jake. Em uma das cenas Jake presencia Kelly Brook e Riley Steele dançando e nadando peladas no mar, com direito a música clássica na trilha sonora, cena que já entrou para a história do cinema, seja para o bem ou para mal, dependendo da sua visão.
Por outro lado a xerife Julie (Elisabeth Shue) está ao lado de uma equipe de pesquisadores tentando encontra no mar o local que aconteceu um estranho terremoto subterrâneo. Ao longo das investigações, Julie descobre com o auxílio de Goodman, interpretado por Christopher Llyod (De Volta Para o Futuro), que por causa do terremoto um cardume de piranhas pré-históricas foram liberadas no Lago Havasu. A xerife agora precisa esvaziar o lago lotado de jovens bêbados que estão curtindo suas férias antes que os banhistas virem comida para as piranhas.
Com tudo isso, temos um filme que vira uma mistura de terror com comédia, com uma longa (e impressionante) cena dos jovens sendo atacados pelas piranhas, com direito a muitas cenas de nudez (os adolescentes vão pirar), sangue e mutilações violentas e absurdas, como a de um pênis, na cena mais engraçada do filme.
Piranha 3D é diversão picareta e garantida, assumidamente vagabunda, porém talentosa. Alexandre Aja simplifica absolutamente tudo ao máximo: há uma explosão interminável de clichês sendo trabalhados e a história se justifica meramente como um embuste (há uma festa louca à beira da praia e uns malucos fazendo filme erótico num barco e uma policial tentando evitar que a galera vire comida de peixe,e é só isso) qualquer jogado em tela para montar uma narrativa que conecte as diversas cenas e imagens-chave, que vão desde as criativas e bem maquiadas mortes, cheias de sangue, triturações e desmembramentos, até nudez; pornografia; beijos lésbicos debaixo do mar; brincadeiras envolvendo bebidas derramadas em barriguinhas saradas em alto mar; beijos lésbicos em alto mar; personagens fazendo filmes pornôs enquanto bebem e se drogam ao redor de um monte de mulheres semi-nuas e bêbadas; festas a beira-mar; tragédias a beira-mar; beijos lésbicos a beira-mar; e um romance mais picareta que o próprio filme.
Tirando tudo isso, é verdade, não sobra nada. E nem precisava. Piranha 3D assume-se como um genuíno filme trash e Aja é extremamente habilidoso em lidar com todos estes elementos, fazendo um filme objetivo e dinâmico e que consegue divertir com facilidade àqueles que embarcarem na brincadeira. Não alça vôos maiores justamente por se minar de tantos elementos cômodos do cinema trash, mas faz justiça contra aqueles que sempre enxergaram o original como sendo um produto superficial de segunda linha com as muitas “pancadas” que recebeu.
Piranhas 3D não foi rodado e sim convertido para 3D, obtém com essa opção o pior resultado possível e isso é realmente uma pena. Apesar das cenas terem sido criadas obviamente para causar impacto quando em 3D, por causa da péssima conversão em alguns momentos as imagens parecem embaçadas. Para tornar o filme ainda mais cômico a cena que funciona melhor em 3D é na cena das mulheres nuas.
Piranha 3D é uma mistura dos filmes de terror do passado e do presente, ao mesmo tempo que mantém seu lado cômico na medida certa, diversão certa para quem for assistir sem expectativa de ver um grande filme e tiver estômago forte. Posso dizer que Piranhas 3D foi um dos filmes mais violentos que assisti e certamente foi feito pra impressionar objetivando assim fazer jus à sua temática trash, por isso o recomendo somente a quem tiver “estomago de ferro”.
Uma ótima pedida, Aja se mostra mais uma vez um diretor talentoso, conseguindo alcançar ótimo resultado no trabalho que se propôs a realizar, gostei, nota 9!

domingo, 24 de outubro de 2010

Atividade Paranormal 2 ( Paranormal Activity 2)


O primeiro filme da agora franquia “Atividade Paranormal” veio com uma idéia bacana, uma produção simplória e uma realização que funcionou muito bem. O longa atingiu um nível claustrofóbico interessante, que obrigou o espectador a necessariamente embarcar na experiência proposta pelo mesmo. Ainda assim, tivemos um bom material para trabalho que foi desperdiçado com uma duração desnecessária da projeção, e os quase inexistentes sustos, para uma produção que ao menos se vendia como assustadora. Mesmo assim, os poucos momentos de sustos são compensados pelos momentos de tensão e medo e a conexão entre essa tríade garante um filme surpreendente e que chama a atenção do público aficcionado à filmes do gênero.
Após uma boa aceitação do público e uma imensa rentabilidade, obviamente se providenciou a continuação do filme, que aparentemente seria uma história independente daquela mostrada no primeiro longa. Justamente aí que reside um grande ponto positivo desse segundo filme: A forma como ele se relaciona com o antecessor. Ainda que seja uma sequência “avulsa”, com outro foco e outros protagonistas, o “link” que é construído paralelamente à história previamente apresentada é feito minuciosamente e acresce de maneira interessante a ambos os filmes. Somente aí já temos uma construção narrativa respeitável. A ligação entre os dois filmes é muito bem descrita e articulada, e explica de maneira simples, porém detalhada, o que são as “atividades” e porquê acontecem.
O longa ainda investe em uma das questões mais pertinentes em filmes do gênero: A identificação com o espectador. Ele traz uma história bastante crível que discute os famigerados jogos envolvendo contatos com espíritos, amplamente difundidos entre o público mais jovem. E toda a história que precede a cronologia da trama, é contada por meio de diálogos deslocados que exigem do espectador a mínima capacidade para interpretar a tal história prévia em questão. Portanto, é fundamental que o público assista ao primeiro filme.
Mas o grande trunfo da sequência é justamente o seu foco principal. “Atividade Paranormal 2″, assim como o primeiro, aposta no medo e na expectativa, e não no susto em si. Aqui temos também um material bem mais aterrorizador que no primeiro. É interessante ver a reação das pessoas na sala de projeção. Os sustos e gritos vinham nas horas adequadas, mas em outros momentos algumas risadas deslocadas eram ouvidas. Galhofa? Talvez. Mas prefiro imaginar que era a maneira que o público tinha para expressar tamanho nervosismo e suspense. E ainda que os possíveis sustos tenham sido frustrados por diversas vezes, o que exemplifica um dos grandes defeitos dos dois filmes, em especial o primeiro, esse segundo nos compensa com um olhar acerca da reação dos personagens, traçando um paralelo direto com as próprias pessoas da sala de cinema.
O longa conta com uma boa equipe de atores, na qual curiosamente todos os personagens têm o nome dos seus respectivos intérpretes. Essa equipe tem uma dinâmica interessante, que transmite para as telas grande naturalidade nas cenas, o que torna mais crível as discussões e dilemas das personagens. Defendo ainda que o longa seja dividido em duas partes: A primeira seria como as pessoas evitam afirmar esses acontecimentos, analisando a incredulidade, medos, e até mesmo questões religiosas, e em segundo seria como elas reagem quando comprovam a existência efetiva dos mesmos, discutindo inclusive os limites da integridade moral dos personagens em questão.
O filme não tem recursos fotográficos rebuscados e sua técnica visual é “rasteira”. Destaque para uma sequência onde uma “handycam” assume a primeira pessoa, e anda à noite pela casa; além de uma cena no final, que usa novamente na técnica utilizada em “O Silêncio dos Inocentes” e o mais recente “REC”. Conivente com a narrativa, temos seis câmeras estáticas que captam grande parte dos acontecimentos, o que funciona por justificar as algumas gravações do filme, mas que acabam sendo por vezes, repetitivas. No entanto, esta repetição não chega a ser cansativa e é até importante para garantir o clima de terror, medo e tensão que crescem a cada minuto.
A edição e montagem seguem a lógica da direção, que preza por frustrar os sustos durante grande parte da projeção com planos que são inúteis se analisados de maneira emergencial, mas que gradativamente são responsáveis por introduzir as cenas que exigem mais técnica, que aparentemente são construídas sem o auxílio de qualquer tecnologia digital. O quesito sonoro auxilia bastante no clima que se pretende criar e a simples inserção do som ambiente já é grande responsável pela tensão criada, que acaba evidenciando cada pequeno ruído presente na claustrofobia da residência.
Bem provavelmente eu tenha observado muitos aspectos que talvez não se encontrem tão efetivos quanto são, como quando analisamos minuciosamente as entrelinhas da história. Mas se conseguimos obter tantas camadas de interpretação, é porque ainda que indiretamente, o filme dá vazão para tal. Mas o mais interessante é o seguinte: Quando a projeção terminou, os créditos rolaram com sons e ruídos bastante peculiares, mas os espectadores começaram a especular o porquê que as luzes não acenderam. Fui até um funcionário do cinema e perguntei o motivo, e ele me avisou que foi uma exigência da distribuidora, bacana né? Isso significa que o filme se leva e é levado a sério. E só nisso ele merece, ao menos, respeito.
“Atividade Paranormal” 2 é filme feito para aqueles que gostaram do original. Recria o formato sem inovar em nada, mas novamente conseguindo gerar tensão e principalmente medo (muito mais comparado ao primeiro). É um filme de espera, onde os pequenos movimentos incomodam mais pela expectativa do que está por vir do que propriamente pelo que acontece. Além disto, sua história é melhor desenvolvida do que no primeiro filme, que possuía diversas cenas que passavam a impressão de ali estarem apenas para ocupar espaço. Um ótimo filme, que acrescenta dados importantes e coerentes para a franquia como um todo e deixa um final predispondo à novas sequências. Se a qualidade dos futuros filmes for mantida, que venham novas continuações!
Bastante recomendável, principalmente aos fãs do gênero suspense/terror. Por outro lado, não recomendável à pessoas que se impressionam facilmente e tem medo de assuntos envolvendo espíritos!
Nota 9

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - O Inimigo agora é outro


Lançado em 2007, “Tropa de Elite” se tornou um dos maiores ícones da cultura pop brasileira no século XXI. Vítima de uma polêmica sem precedentes envolvendo a pirataria no país, o longa conquistou uma legião de fãs, que repetiam nas ruas jargões que viram no cinema (ou, infelizmente, no computador), como “pede pra sair”, "nunca serão", “faca na caveira”, "o sr. é um fanfarrão" e muitos outros.
"Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção". É desta forma que inicia “Tropa de Elite 2”, fenômeno antes mesmo de estrear. Em parte pela popularidade do filme original, que eternizou personagens e bordões no inconsciente coletivo nacional, mas não apenas isto. O grande atrativo de “Tropa de Elite” era a denúncia ao “status quo”, à corrupção que permeia a polícia e faz com que ela aja de forma ineficiente e truculenta. Somado a isto, há a criação de um salvador, um ícone que surge para "limpar a cidade": (grande)Capitão Nascimento. Os meios brutais os quais usa nada mais são do que reflexo da sociedade atual, que os aceita por não mais crer em soluções pacíficas. É dentro desta realidade, e sabendo explorá-la, que o diretor José Padilha conduz a história de seu novo filme.
Padilha aprendeu muito desde o primeiro “Tropa de Elite”. Ousado ele é desde “Ônibus 174”, o corajoso documentário que dá um caráter sociológico ao sequestro ocorrido no Rio de Janeiro em 2000. Acusado de fascista, ele agora brinca transferindo a acusação ao personagem principal da série. Só que, mais do que rebater as críticas que recebeu, Padilha as amplia. Deixa o reduto carioca do BOPE para tratar de política, partindo do Estado do Rio de Janeiro para alcançar o país ( oooo maraviha, Padilha: VC É O CARA, hehe). É exatamente neste ponto que Tropa de Elite 2 atinge sua grandiosidade.
O filme começa situando o espectador em relação aos personagens sobreviventes. Nascimento (Wagner Moura, mais uma vez incorporando de forma brilhante o personagem) permaneceu no BOPE, mas logo o deixa para cumprir uma função na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Acreditando ser esta sua grande chance de "quebrar o sistema", como o próprio diz, embarca com unhas e dentes na difícil empreitada de derrotar o tráfico de drogas. Consegue. Só que a realidade brasileira, como bem dizia Tom Jobim, não é para iniciantes. Mesmo uma “raposa” experiente como ele não podia contar com as “mutações” do sistema para que tudo permanecesse como está. E é justamente a revelação destas “mutações”, em caráter muito mais amplo do que simplesmente a questão de segurança pública, que faz de “Tropa de Elite 2” algo muito maior do que um mero filme.
Padilha conseguiu tratar de assuntos complexos e delicadíssimos (acredito que até para sua própria segurança) de forma coesa e coerente. Não há como não reconhecer vários dos personagens e situações retratados a partir do que se vê na vida real. “Tropa de Elite 2” é, em vários momentos, um documentário rodado com atores, o que lhe dá uma importância ainda maior. É o cinema denúncia, expondo uma situação calamitosa a qual se prefere fechar os olhos por comodismo ou interesse.
A corrupção da polícia, assim como no primeiro filme, ainda é abordada, mas agora é vista como ferramenta de um jogo de poder muito mais complexo. O lançamento do filme em período eleitoral (outubro de 2010) é sintomático, uma vez que podemos ver que os políticos retratados na produção não são muito diferentes dos que foram eleitos para cargos públicos recentemente. Alguns dos personagens, inclusive, são praticamente cópias de candidatos reais, mas não nos cabe aqui dar nome aos bois.
Em meio a questões sobre direitos humanos, política eleitoral e o impacto dos atos de Nascimento junto à população, “Tropa de Elite 2” traz de volta o sarcasmo do primeiro filme. Desde provocações como chamar o esquerdista Fraga (Irandhir Santos, impecável) de "Che Guevara" até constatações diretas e secas, como "os chefes do tráfico em Bangu I não foram mortos porque tinham grana para perder", o filme é repleto de belas sacadas que já fizeram a alegria dos fãs do filme original. Se não tem a mesma quantidade de frases marcantes, trata de forma coerente e realista todos os personagens, dos mais importantes aos de menor destaque no filme original. Méritos para Bráulio Mantovani, “monstro” em matéria de roteiro no cinema nacional.
Mantendo os mesmos acertos do primeiro longa no que diz respeito à fotografia, edição e trilha sonora, “Tropa de Elite 2” possui ainda a qualidade de se provar complexo. O filme, e o problema da violência no Rio de Janeiro e outras grandes cidades no Brasil, não pode ser explicado em poucas linhas e, por isso, a opção de fazer uma continuação para mostrar outra vertente da questão é absolutamente memorável.
É claro que algumas sequências, em especial as de ação, irão lembrar “Tropa de Elite”, mas este segundo filme tenta ao máximo evitar a redundância. Busca-se inclusive modificar um pouco as sequências de tiroteio e invasão de favelas para não parecerem mais do mesmo.
“Tropa de Elite 2” não é um documentário sobre o sistema ou um filme panfletário de denúncias, mas coloca o dedo na ferida em algumas questões importantes e se isso for o suficiente para estimular a reflexão o filme já terá cumprido seu propósito. É claro que o filme pode ser visto apenas como um thriller político de ação, mas é muito mais do que puro entretenimento.
“Tropa de Elite 2” é um excelente filme. Só isto já é motivo mais do que suficiente para assisti-lo, mas desta vez José Padilha foi mais longe. Conseguiu, a partir de um mero filme, convidar o espectador a rediscutir o Brasil como sociedade, como proposta viável de país. Sem apresentar soluções, apenas retratando a realidade. Talvez não seja tão bom quanto o original, mas com certeza é mais importante, pelo que representa para o cinema brasileiro e, acima de tudo, para o país.
Uma exibição lotada, uma platéia inflamada que durante vários momentos aplaudiu à sessão calorosamente e um parágrafo resumitivo para retratar o que achei sobre “Tropa de Elite 2”:
Um filme corajoso, audacioso e muito, mais muuuuuuuito polêmico... como eu queria que todo o sistema assistisse a este filme.... sei que é uma obra de ficção e pouca coisa mudará na vida real no que diz respeito à “máfia” que envolve nossa sociedade e principalmente nossa política, porém, a ferida foi cutucada e isso já é algo importante e significativo!!
Junto de "A origem", "Tropa de Elite 2" é o melhor filme do ano!
Nota 10!!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Último Exorcismo ( The Last Exorcism)


Filmes de terror são os meus prediletos e não pensei duas vezes para assistir “O Último Exorcismo” em sua estréia, até porque está recebendo boas críticas e trata-se de uma temática sempre muito polêmica e muitas vezes oculta em nossa sociedade. “O Último Exorcismo” é filmado através de uma câmera rústica de mão, com o intuito de fazer de conta que há veracidade naquilo que está sendo mostrado, proporcionando maior realismo à situação e provocando mais medo e sustos ao público alvo. O filme até consegue provocar momentos de medo e sustos, porém, falha nos quesitos explicação dos fatos e roteiro, oferecendo-nos um resultado final previsível e decepcionante.
O reverendo Cotton Marcus (Patrick Fabian) decide filmar seu último exorcismo. A escolhida para a última prática dele é a inocente Nell Sweetzer (Ashley Bell), filha de Louis Sweetzer (Louis Herthum), um perturbado senhor e fanático religioso. Inicialmente, Marcus propõe revelar as mentiras que envolvem a prática tantas vezes feitas por ele, mas logo a situação que ele achava ter domínio sai de controle ao ponto de causar dúvidas sobre a existência de demônios até mesmo no experiente reverendo. Apesar do enredo previsível, vemos que este se encaixa direitinho com o tom da história e até consegue envolver, porém, alguns furos no decorrer da história acabam estragando tudo.
A direção é do desconhecido Daniel Stamm, que tem um desempenho superior a sua popularidade. Ele usa e abusa das técnicas de filmagem e as utiliza de forma ousada e oportuna. Além da câmera nervosa que treme exaustivamente, temos traços amadores utilizados de forma pensada que, dentro do contexto da obra, acrescentam muito ao trabalho. Uma das cenas mais interessantes é a que a menina tomada pelo demônio pega a câmera e saí desesperada. O efeito da cena é aterrorizantemente válido principalmente pelos sustos causados. Assim, o longa utiliza a seu favor um fato que o prejudicaria inicialmente.
O artifício de se utilizar a câmera caseira é um recurso que definitivamente funciona bem no filme. Fica a sensação de que o susto pode surgir a qualquer momento e isso acontece até mesmo quando a câmera não está captando as imagens mais aterradoras que deveria captar. A rusticidade na imagem muitas vezes desfocada, aliada aos “closes” no rosto de Nell, geram momentos de tensão e sustos em alguns (poucos) momentos. Poucos momentos de sustos? Sim. Eis outro aspécto negativo do filme. O orçamento de “O Último Exorcismo” girou em cerca de 1,8 milhões, valor ínfimo comparado a outras produções do mercado cinematográfico mundial, sendo assim, observamos um trabalho com poucos recursos no quesito efeitos especiais, visuais ou ainda sonoros e na minha visão, os momentos de tensão, sustos ou medo, não foram maiores por isso. Não que esses aspéctos sejam essenciais para se fazer um bom filme, mas no caso de “O Último Exorcismo” fizeram falta, pois estão praticamente ausentes e os poucos momentos de tensão que a película nos oferece está exclusivamente associado à maneira com que a câmera é conduzida, através de seus closes, fechamentos e “tremeliques”. Deste parágrafo dá pra se tirar uma crítica positiva: o mérito de gerar medo e tensão através da ação exclusiva de uma câmera de “baixa qualidade”, e uma crítica negativa: o pouco recurso financeiro destinado ao filme, e a conseqüente ausência de maiores recursos técnicos que poderiam proporcionar ainda mais momentos de sustos, advindos do medo e tensão.
Do desconhecido elenco destacam-se três integrantes cruciais para a história. O primeiro é Patrick Fabian, que encarna o falso reverendo e lhe dá uma esperteza bem interessante à proposta do personagem. A segunda é a menina “endemoniada” (Ashley Bell). Ela inicialmente é frágil e meiga, depois é inescrupulosa e cínica. Quando boazinha, ela não convence, mas no lado ruim ela se supera. O terceiro é o pai (Louis Herthum) da menina que é cercado por seu fanatismo e por um mistério que perdura toda a obra. E ainda tem a produtora da filmagem feita por Iris Bahr que, embora esteja em quase todas as cenas, aparece em poucas e nada acrescenta à trama.
O roteiro (de Huck Botko e Andrew Gurland) é um tiro no pé do filme. Até se constrói um ambiente pensado e realista que impressiona por sua eficiência quanto ao gênero, porém, logo em seguida, a dupla de roteiristas estraga tudo com a história do “666” nas paredes e com o desfecho que não merece nem comentários. Percebe-se a frustrada tentativa de repetir os finais de outros filmes que deram certo, no entanto tal estratégia não funcionou.
A fotografia do longa é boa à medida que explora o lado obscuro da história, além de utilizar o baixo orçamento a seu favor. É mais válido explorar com detalhes uma casa caindo aos pedaços situada em um lugar deserto e aterrorizante. Além de ser mais realista, é muito mais econômico. A cena quando o reverendo chega ao local onde praticaria o ato é bem lenta e descritiva. Ela dá uma importante introdução do cenário isolado da obra. Destaque também para o bom aproveitamento das cenas noturnas, das cores escuras e da cor vermelha. Esta última é perceptível na sequência em que a menina sai com a câmera.
O tom metalinguístico da película se inspira em uma tendência nas obras de terror mais bem sucedidas nos últimos anos. O fato de ser filmada dentro de uma filmagem é estranho, mas até que funciona. O maior exemplo disso é “Atividade Paranormal”, que muita gente acredita até hoje que são cenas reais. Em determinada cena, a imagem do espelho mostra o câmera que é totalmente descartado da história. Ele a filma, mas não fala. Já a produtora aparece em poucas cenas apenas para o público não esquecer a contextualização da obra. Algo que não caiu muito bem, diga-se de passagem.
“O Último Exorcismo” impressiona por sua beleza visual perante a um baixo orçamento. Um filme que utiliza sua deficiência como uma oportunidade e, embora cause alguns (poucos e bons) sustos durante toda sua exibição, o andamento da história deixa uma impressão aquém do que merecia. Destaques para o aspécto visual e pela maneira com que a “filmagem caseira” foi conduzida, como críticas negativas (e pra mim são as principais) coloco o roteiro e o desfecho, amplamente previsível e decepcionante.
Nota 6